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‘Permissões para poluir não são commodities’, afirma Amyra El Khalili

Por Fabiano Ávila   

A economista Amyra El Khalili é uma das maiores especialistas brasileiras sobre o setor financeiro e foi a primeira a cunhar o termo commodities ambientais. Com mais de duas décadas de trabalho dedicadas ao mercado de futuro e de capitais, tendo sido uma das primeiras operadoras de pregão da BM&F, Amyra possui uma visão bastante crítica das ferramentas de mercado com o objetivo da conservação ambiental.

Instituto CarbonoBrasil - Sabemos que o modelo atual de capitalismo predatório não é o ideal para o desenvolvimento da humanidade, porém, infelizmente, a única coisa que move a sociedade para agir parece ser o seu bolso. Se as ferramentas de mercado, colocando um preço nos recursos naturais, não são adequadas para lidar com a exploração massiva dos ecossistemas como muitos acreditam, qual seria o melhor modelo?

Amyra El Khalili - A crítica procedente a este modelo capitalista é justamente no que está sendo precificado, ou seja, os ecossistemas e os serviços ambientais que são aqueles que a natureza nos oferece gratuitamente. De fato, quando há escassez, a consequência será a mercantilização destes ‘recursos naturais’ (como chamamos em gestão ambiental), das matérias-primas (como chamamos na indústria) ou da megadiversidade e dos ecossistemas (como chamamos no ambientalismo). Veja você que dei três nomes diferentes para a mesma coisa! E cada um desses nomes tem um entendimento diferente do que representam.

Então o que propomos é um novo modelo, onde esta precificação (formação e preços) seja calculada diretamente no ‘produto’ e não na matriz ambiental que gera o produto. Quando indicamos as sete matrizes para produção de “commodities ambientais” (água, energia, biodiversidade, florestas-madeira, minério, reciclagem e redução de poluentes –água, solo e ar), estamos falando de “mães ambientais”, dos ecossistemas e de processos de gestão ambiental e não de ‘comoditizar’ (transformar em mercadorias) estas matrizes. Pois as matrizes ambientais são bens difusos (de uso público) e processos (conhecimento e tecnologia) e devem ser administradas pela sociedade conjuntamente com os governos e iniciativa privada.

Acontece que este modelo econômico do capitalismo predador entrega a administração, a gestão e os lucros diretamente nas mãos da iniciativa privada com a conivência e aval dos governos que se submetem a essa dinâmica neoliberal, transferindo suas responsabilidades para as corporações.

Há soluções quando buscamos o caminho do meio, ou seja, construindo um novo modelo onde sejam valorizados os conhecimentos tradicionais, a preservação aliada à conservação ambiental com as comunidades que vivem nestes habitats naturais. Exemplifico: o doce de goiaba da Associação das Mulheres Produtoras de Goiaba de Campos dos Goytacazes pode ser uma “commodity ambiental”. O que deveria ser precificado? A goiabeira? Não. O doce de goiaba, que é produto gerado da goiabeira. A goiabeira é uma árvore que pertence à floresta nativa ou a um reflorestamento de espécies exóticas. Esta árvore é parte do ecossistema. A goiabeira manejada, que tem seus frutos recolhidos corretamente com o plantio de outra muda no seu entorno, é naturalmente uma produtora de serviços ambientais, pois, sequestra carbono, mantém a cobertura vegetal, alimenta animais e aves, recompõe a vegetação degradada e promove a recarga de aquíferos, entre outras funções. Essa valoração deve ser contabilizada no produto final que a goiabeira gerou: o doce de goiaba e o lucro deste doce devem ser divididos entre a Associação de Mulheres que os produziu. Não é monocultura da goiaba, mas diversificação de produção. Assim sendo, quando não for tempo de goiaba, passam a produzir doce de cagaita, e quando não for tempo de cagaita, produzem doce de pequi e assim por diante. A monocultura gera impactos ambientais. Para manter um serviço ambiental, é necessário também modificar o modelo de produção e todo complexo que envolve essa produção. Veja que o modelo econômico contempla uma associação ou cooperativa, um grupo, e não um investidor capitalista ou multinacional que produz doce de goiaba para venda industrial em supermercados. Essa é a questão: quem será beneficiado por cuidar dos ecossistemas e como se dará a gestão e resultados obtidos com os ‘ecossistemas’.

ICBr – Você poderia explicar o conceito de commodities ambientais e qual a importância de fazer a diferenciação entre elas e os créditos de carbono, por exemplo?

Amyra - A ‘comoditização’, processo de produção e qualidade para o sistema bursátil (da bolsa de valores) gera altos impactos ambientais. Exige cada vez mais tecnologias de ponta, como biotecnologia, geoengenharia, nanotecnologia, maquinário pesado que utiliza cada vez menos mão de obra, monocultura intensiva e cada vez mais e mais avança fronteiras agrícolas (soja, milho, cana, café, etc..) e de exploração mineral (petróleo, minério de ferro, ouro, prata, aço,etc..); é o que chamamos de commodities convencionais. Se a ‘comoditização’ gera altos impactos ambientais e é contrária ao processo natural dos ecossistemas em tempo e conservação – por serem necessárias para atender a demanda do mercado de derivativos altas escalas de produção, promovendo concentração de riquezas e cada vez empregando menos – como uma commodity pode ser ambiental?

Para produzir uma ‘commodity ambiental’ é necessário compreender o que significa ser ambiental, ou seja, atender o econômico, o social e o ecológico. Assim sendo, o modelo econômico deve ser o contrário da commodity convencional. Na commodity convencional o sistema financeiro está no topo do triângulo, pois é quem decide quais serão os critérios de produção, certificação, contratos mercantis e comercialização das commodities convencionais; já nas commodities ambientais, o excluído deve estar no topo deste triângulo, pois os povos das florestas, as minorias, as comunidades que manejam os ecossistemas é quem devem decidir sobre esses contratos, critérios e gestão destes recursos, uma vez que a maior parte dos territórios lhes pertencem por herança tradicional. No meio ambiente urbano, chamamos as comunidades para decidir sobre estes critérios de produção e todo aparato de instrumentos econômicos considerando que a favelização, a pobreza, a miséria que as levam para as regiões de riscos ambientais, como beiras de rios, encostas de morros, áreas de lixões; enfim, há toda uma discussão com a sociedade para identificarmos as matrizes ambientais a serem preservadas e quais seriam os produtos gerados por estas matrizes.

Veja então a confusão conceitual na qual se chegou: os créditos de carbono são certificados que pretendem (pelo menos em tese) reduzir a poluição, portanto não são commodities convencionais, já que poluição não deveria ser mercadoria, e muito menos são commodities ambientais. Tanto não são, que até o presente momento não existe ainda um arcabouço jurídico para os créditos de carbono no Brasil. E no exterior são definidos pela imprensa especializada em finanças e pelos legisladores dos países europeus que os negociam como ‘permissões para poluir’, com cotas de permissões autorizadas por seus comitês de regulação.

Portanto, chamar ‘créditos de carbono’ de ‘commodities ambientais’ somente criará confusão conceitual e postergará cada vez mais a regulamentação desse instrumento econômico, haja vista que todo operador de commodities sabe perfeitamente que quando opera no mercado spot (à vista) ou nos mercados futuros (derivativos) está negociando estoque de produtos e não a redução de estoques, até por que se for redução de estoque (negativar o produto) não há como realizar uma engenharia financeira nos mercados de derivativos (futuros). Se no futuro a poluição acabou por que vamos projetar seu preço?

Assim sendo, se os mercados de derivativos estão negociando ‘créditos de carbono’ significa que a poluição está sendo tratada como ‘commodity’ e que não está sendo reduzida a poluição; pelo contrário, estão projetando no mercado futuro que ainda haverá estoques de carbono na atmosfera para ser negociado. O que estimulará o aumento da poluição.

E se for comprovado que é desta forma mesmo que estão negociando os créditos de carbono, como estão denunciando na imprensa internacional com o caso do HCFC-22 e do HFC-23, os chamaremos de ‘commodity suja’, mas jamais incorreremos no absurdo conceitual de chamá-los de ‘commodities ambientais’.

ICBr – Recentemente, acompanhamos o lançamento da Bolsa Verde do Rio de Janeiro e o anuncio de um futuro mercado de carbono no estado. Como você enxerga essas iniciativas?

Amyra - Confesso que ainda não compreendi como se dará a ‘operacionalização’ desta Bolsa e quais são as regras adotadas para a comercialização dos Créditos de Carbono e demais Créditos no estado do Rio de Janeiro, quais são as salvaguardas, o sistema de compensação, as avaliações de riscos sistêmicos e nem a engenharia da coisa.

Soube pela imprensa e ainda há pouca informação para avaliarmos. Não é tão simples formar um mercado regional de créditos de carbono, de efluentes e dos produtos anunciados pela Bolsa Verde. Fiquei confusa quando recebi a notícia, pensei que fosse o Programa Bolsa Verde do Governo Federal, depois em outra notícia o repórter chamava os tais ‘créditos’ de ativos ambientais, de commodities e de valores mobiliários (ações).

Em outra matéria li a declaração de um dos idealizadores afirmando que todos esses créditos são ‘commodities ambientais’ e que ainda não existia uma Bolsa de Commodities Ambientais. Com esta declaração fiquei com a impressão de que estão passando por cima de um debate público sobre ‘commodities ambientais’ com centenas de relatórios produzidos em diversos estados brasileiros assinados por centenas e centenas de lideranças comunitárias, cientistas e ambientalistas. Se for isso mesmo, não nos surpreende o modus operandi. Recentemente fomos vitoriosos em ação judicial que moveu o Sindicado dos Economistas no Estado de São Paulo contra a ONG CTA. Foi comprovado judicialmente todo aparato técnico-científico que envolvem os direitos autorais sobre o Projeto BECE, originado do Projeto CTA, de minha autoria. Ganhamos o processo na 1ª e 2ª instância. Uma vitória retumbante contra um sindicato forte que congrega em torno de 25 mil economistas paulistas.

Creio que os idealizadores da Bolsa Verde também estão ignorando que a BovespaBM&F tem o registro junto aos órgãos reguladores dos créditos de carbono. Eu, pessoalmente, na qualidade de ex-operadora e ex-consultora de commodities da BMF, acho muito difícil que a BovespaBM&F abra mão destes royalties. Aliás, se a BovespaBM&F ainda não fez mais do que está fazendo é porque encontrou falhas nos desenhos destes instrumentos que podem colocar em risco o seu sistema de salvaguardas. Prudência faz parte da sabedoria de quem conhece muito bem o que é risco sistêmico e enfrenta um processo no Caso do Banco Marka e FonteCindam.

ICBr – Considerando o modelo do ETS californiano, onde apenas uma pequena fatia das cotas de emissões pode ser suprida com offsets, você acha que seria um modelo mais interessante a ser seguido?

Amyra - Se ocorrer uma falha no desenho mercadológico do instrumento econômico lançado no mercado, mesmo que seja em teste, é muito difícil efetuar correções. O problema está na forma com que os títulos estão circulando no sistema. Executar arbitragens, desenhar opções nos derivativos e outras engenhocas para suprir uma falha de risco não modifica erros estruturais do contrato financeiro.

ICBr – Existem vários casos de fraude e de especulação nos EU ETS, no MDL e até no REDD. Esses fatos negativos fazem parte de um aprendizado para deixar essas ferramentas mais sólidas ou elas possuem tantos problemas fundamentais que continuaremos a ver esse tipo de coisa?

Amyra - É como disse anteriormente, se o sistema financeiro compreender estas ‘permissões para poluir’ como ‘commodities’, não tem mais como fazer correções, pois desencadeará uma série de operações sem controle.  As fraudes ocorrem por que há vácuos na legislação, na implantação, na regulação e na comercialização. Quando um contrato é aprovado para ser negociado em Bolsa, tem que ter um estudo de risco sistêmico, a justificativa de que esse instrumento não causará um dano para a economia. Por este motivo também é preocupante a movimentação nos mercados voluntários e nos mercados de balcões (fora das Bolsas). Toda argumentação técnica científica para os créditos de carbono ancorados no MDL e agora as propostas para o REDD são de fatores ambientais, mas não de cálculos financeiros compreendendo a dinâmica e a velocidade com que os mercados negociam. Portanto esse aprendizado, na prática, pode custar muito caro para o meio ambiente, e se prejudicar sua credibilidade quem pagará essa conta será a humanidade.

ICBr – A Rio+20 está chegando e muitos comentam que a conferência já começa enfraquecida, inclusive sem possuir o devido foco. Qual sua opinião sobre o evento?

Amyra - Novamente as confusões conceituais estão no foco da questão. Ainda é confuso o conceito de economia verde. Na verdade a crítica sobre esta expressão ‘economia verde’ se dá por entenderem os movimentos sociais, ambientalistas e cientistas renomados que é apenas a reprodução do capitalismo predatório agora sobre as riquezas naturais, sem uma proposta concreta de mudança no modelo econômico e sem metas estabelecidas que respeitem os direitos fundamentais, como os princípios acordados na Rio-92: o Princípio do Poluidor Pagador, o Princípio da Precaução, o Princípio das Responsabilidades Comuns porém Diferenciadas.

No entanto, a Rio+20 está propiciando uma discussão salutar sobre a economia que vivemos, que é a economia de mercado para a economia que queremos. Uma nova economia. Se colocarmos todas as variáveis na balança, independentemente do resultado final dos documentos que serão produzidos na Rio+20, estaremos provocando uma discussão fundamental para iniciarmos o processo de transição do capitalismo predatório para uma economia justa, socialmente digna, politicamente participativa e integrada e ambientalmente sustentável. Essa será a esperança do Projeto BECE e a razão de existir da Aliança RECOs (Redes de Cooperação Comunitária Sem Fronteiras), e por isso apoiamos a Cúpula dos Povos, movimento paralelo à Rio+20, como contraponto ao discurso oficial.

ICBr – E como está o projeto BECE-Brazilian Environment Commodities Exchange (Bolsa Brasileira de Commodities Ambientais) e a Aliança RECOs?

Amyra - A ONG RECOs – Redes de Cooperação Comunitária Sem Fronteiras (antiga ONG CTA) – nasceu do projeto de educação financeira nos mercados de capitais que idealizei e coordenei (1996 a 2003) para o Sindicato dos Economistas (SP). Este projeto era, a princípio, uma consultoria para a Bolsa de Mercadorias & de Futuros (1990) na gestão de Dorival Rodrigues Alves, falecido em 1999, vítima de câncer, um dia antes de terminar o segundo curso patrocinado pela BM&F para formação dos CTA’s (Consultants, Traders and Advisors – Geradores de Negócios Socioambientais nos Mercados de Commodities). Desde sua morte, decidi que este projeto seguiria seu caminho natural como Organização da Sociedade Civil e hoje como rede internacional, a Aliança RECOs.

Atualmente, a aliança é uma teia de intensas relações afetivas (clusters), ou seja, é uma rede solidária unindo produtores e difusores de informações, com o objetivo de registrar a história do desenvolvimento sustentável, fomentar e estruturar o mercado de “commodities ambientais” e “commodities espaciais” desde o Brasil de um novo modelo econômico para América Latina e o Caribe.

A Aliança RECOs está implantando, há mais de uma década, o Projeto BECE (sigla, em inglês, de Bolsa de Commodities Ambientais), que até então era apenas uma proposta, debatida por seis anos em redes virtuais, com mensagens eletrônicas, palestras, seminários, cursos e atividades culturais no Brasil e no exterior. O nome está em inglês em função também da linguagem financista universal e, em especial, por uma saudável provocação ao Banco Central, pois o codinome BECE significa: B de Banco, E de Ecologia, C de Central, e E de Economia. Hoje, a Aliança RECOs conta com a parceria de centenas de lideranças, entidades e instituições de peso nacional e internacional.

O estudo técnico-científico de origem brasileira ocorreu no final de 1989 e começo de 1990, motivado pela concentração de riscos nos mercados de futuros, chamados derivativos, quando um grupo de operadores de commodities convencionais discutia o quanto ganhavam seus clientes e, proporcionalmente, quantas pessoas morriam nas guerras para cada dólar lucrado nas bolsas de commodities e futuros com petróleo, metais e moedas. Fizemos, então, uma aposta: quem conseguiria desenvolver uma engenharia financeira que invertesse o modelo ortodoxo das operações financeiras e, ao invés de ganhar com a morte, criar um mecanismo que oferecesse ganhos com as vidas de mais e mais pessoas. Destes apostadores, fui a única pessoa que sobreviveu e levou a aposta adiante (meus amigos faleceram em acidentes, cometeram suicídio ou tiveram enfarto porque não aguentaram a pressão dos mercados).

BECE é um Projeto Open (construído abertamente) e somente caminha com consulta e participação pública. Não decidimos nada, absolutamente nada a portas fechadas. Entendemos que mais importante do que desenvolver Bolsas de Valores e de Commodities era construir e implantar um novo modelo econômico para América Latina e o Caribe, formando redes de cooperação técnico-científicas alicerçadas no tripé: educação, informação e comunicação. Também concluímos que não precisamos de uma Bolsa de Commodities Ambientais, mas de uma Aliança como é a RECOs – Rede de Cooperação Comunitária Sem Fronteiras com o tripé: legitimidade, credibilidade e ética. Sem estes tripés solidificados não há como formar novos mercados emergentes e atender as reivindicações da sociedade, ou seja, nenhuma economia se sustenta!

ICBr – O Brasil é apontado, até por toda a sua riqueza natural, como um berço perfeito para a chamada economia verde. O que falta para vermos esse conceito virar realidade?  Amyra - Pois é essa a preocupação que temos! Se o conceito ‘economia verde’ caminhar na direção da apropriação dos recursos naturais via mecanismos financeiros será uma tragédia, mas se conseguirmos chegar a um entendimento de que podemos promover uma nova economia, o Brasil sem dúvida estará à frente de uma revolução estrutural de todo sistema financeiro mundial. Temos propostas, ideias e competências na ciência, na academia, nos mais diversos setores da sociedade e uma vontade enorme com entusiasmo, que é da característica peculiar de sermos brasileiros, apaixonados pela vida e acolhedores. Temos o que muitos já não têm: natureza e solidariedade. E somente conseguiremos avançar 20 anos na frente desta conferência no Rio de Janeiro se os jornalistas ambientalistas e investigativos forem capazes de traduzir todos esses conceitos e propostas, como está fazendo nesta entrevista o site do Instituto CarbonoBrasil.
Fonte: Instituto CarbonoBrasil

ALL Logística recebe multa milionária por derramamento de combustível

Policias da PMA (Polícia Militar Ambiental) de Três Lagoas multaram a ALL (América Latina Logística) em R$ 1,81 milhão por derramamento de combustível no município de Três Lagoas.

Os policiais chegaram ao local após denúncia anônima, que apontava um descarrilamento de vagões de combustível próximo à estação de Gigante, onde foram encontrados cinco vagões tombados.

Segundo informações da PMA, no local, foi constatado vazamento de combustíveis de um dos vagões que se rompeu e derramou ao solo, pelo menos, 67 mil litros de óleo diesel em ambos os lados da ferrovia, o que gerou risco de incêndio.

O acidente ocorreu no último domingo por volta das 11 horas. Ainda conforme informações da corporação, “a empresa não havia informado ao poder público, demonstrando má fé e, ainda descumprindo o que prevê a Licença Ambiental de Operação (LO), que a obriga a avisar as autoridades, logo que haja qualquer acidente”.

O óleo diesel ofereceu risco de atingir o lençol freático no local, onde há uma represa há cerca de 300 metros. Os funcionários também tinham removido o combustível dos vagões intactos para outros vagões, ainda conforme a Polícia. Os trilhos estavam em péssimas condições.

As causas do acidente não foram identificadas. A empresa foi multada em R$ 1,8 milhão por infração contra a administração pública, neste caso, não informar às autoridades ambientais sobre o acidente.

O responsável pela ALL ainda foi notificado a apresentar plano de recuperação de área degradada, além de remover todo o óleo derramado e aplicar tratamento adequado. Segundo a PMA, eles ainda responderão por crime de poluição em que a pena pode chegar a quatro anos de reclusão.

A reportagem entrou em contato com a assessoria de imprensa da ALL, que ficou de dar posicionamento sobre o assunto.

Fonte: Campo Grande News / Correio de Corumbá

Mineradora terá de pagar R$ 1,5 milhão por danos a lençol freático

O Tribunal de Justiça de Minas Gerais condenou a mineradora AngloGold Ashanti a pagar uma indenização de R$ 1,5 milhão por danos causados a uma família de Nova Lima (MG) cuja casa teve o abastecimento de água interrompido. A decisão é da 9ª Câmara Cível, ao julgar recurso apresentado por um dos moradores do local. O relator foi o desembargador Pedro Bernardes.

O caso começou em 1989, quando o terreno da família teve a passagem de água de 12 nascentes e um ribeirão interrompidos por causa da destruição do lençol freático da área. O lençol foi destruído pelo uso de dinamite no subsolo de uma mina próxima ao terreno, de propriedade da Mineração Morro Velho S/A, que foi incorporada pela AngloGold Ashanti.

De acordo com um dos advogados da família no caso, Conrado Carsalade , do escritório PDSC Advogados, após tentativas malsucedidas de negociação, a família entrou com ação contra a mineradora para que a empresa tomasse providências para a recuperação do lençol freático. Em 2002, a ação foi julgada procedente, mas a obra feita pela mineradora não conseguiu restabelecer o abastecimento de água no terreno.

Em 2006, diante do insucesso da ação anterior, a família entrou com uma ação de indenização por perdas e danos. Em 2011, ao julgar recurso da mineradora, o tribunal condenou a empresa a pagar indenização de R$ 420 mil.

A decisão, porém, não contentou as duas partes. A mineradora interpôs Agravo, alegando que havia feito a obra de reparo, sem ter culpa pelo fato de o abastecimento de água não ter voltado ao terreno e, portanto, a indenização não se justificaria. Por sua vez, a família também interpôs Agravo alegando que o valor da indenização não computava os juros desde o início da ação, cobrando também indenização por danos morais e impossibilidade de uso do bem, pois não poderiam mais usar a casa pela falta de água.

O recurso da família foi parcialmente provido pelo TJ-MG no dia 20 de março, com a decisão de se considerar os juros desde 1989, de acordo com a Súmula 163 do Supremo Tribunal Federal, que diz que, “salvo contra a Fazenda Pública, sendo a obrigação ilíquida, contam-se os juros moratórios desde a citação inicial da ação”. Já os pedidos da família de indenização por danos morais e pela impossibilidade de fruição (usufruto) do bem foram negados. O pedido da mineradora foi totalmente rejeitado .

Segundo Carsalade, o caso ainda ganhará outros capítulos. “Vou encaminhar representação ao Ministério Público, já que foi constatado em perícia que houve caso de crime ambiental, além de recorrer ao Superior Tribunal de Justiça e ao Supremo Tribunal Federal para garantir à família indenização pela ausência de fruição sobre o bem imóvel e indenização por danos morais”. Sem dar detalhes, o advogado da empresa, João Bosco Kumaira , disse apenas que a AngloGold Ashanti vai entrar com recurso.

Fonte: Agência Estado

SOS Mata Atlântica avalia rios brasileiros como ‘ruins’ ou ‘regulares’

Nenhum rio analisado foi considerado bom pela ONG. Dos corpos de água analisados, 25% foram considerados ruins.

Por Amanda Rossi

A organização não-governamental SOS Mata Atlântica avaliou a qualidade da água de 49 rios, córregos, ribeirões, represas, lagos e açudes do país e classificou 25% como “ruim” e 75% como “regular”. Nenhum dos corpos de água avaliados recebeu a classificação “bom” ou “ótimo”. As análises seguem padrões do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e foram realizadas em 11 estados brasileiros entre janeiro de 2011 e março de 2012.

“O resultado é um alerta para autoridades e também para a população, para que haja uma mudança de comportamento e a adoção de atitudes capazes de reverter este quadro. A tendência da situação da água no mundo é de agravamento dos problemas, sobretudo pelo crescimento das cidades e pelo mau uso deste recurso”, diz Malu Ribeiro, coordenadora do Programa Rede das Águas, da SOS Mata Atlântica.

Entre os critérios analisados estão a presença de espuma e lixo, existência de peixes, larvas, vermes e características como temperatura, turbidez, odor e contaminação por coliformes. Os 49 “corpos de água” estão localizados em cidades visitadas por projetos da organização e sofrem maior influência de esgoto e lixo. Mas, segundo Malu Ribeiro, a qualidade da água dos rios na zona rural também é crítica.

“Infelizmente, nas zonas rurais a situação também é crítica, devido ao uso intenso de agrotóxico e fertilizantes em algumas culturas, além do desmatamento de matas ciliares e áreas de proteção permanente”, afirma. “Todas as grandes cidades dependem da preservação de matas em torno dos corpos de água”.

Esta é a segunda edição da análise da qualidade da água dos rios feita pela SOS Mata Atlântica. Entre maio de 2009 a dezembro de 2010, a organização avaliou 75 cursos de água e também não constatou nenhum caso “bom” ou “ótimo”. No entanto, no levantamento anterior três rios foram considerados “péssimos” – categoria não encontrada na última pesquisa, que analisou menos corpos de água.

Alguns dos rios que fizeram parte da primeira edição foram reavaliados no segundo levantamento. Dos 19 casos, 12 não mudaram de categoria, 5 melhoraram e dois pioraram. O destaque da melhora foi o Rio Passo dos Índios, em Chapecó, que passou que péssimo para regular.

Na última rodada de análises, a melhor qualidade de água foi verificada na Bica da Marina, em Angra dos Reis (RJ). A pior ocorreu no Rio Criciúma, na cidade de mesmo nome, em Santa Catarina.

Veja tabela completa dos rios analisados acessando o link: http://g1.globo.com/natureza/noticia/2012/03/aguas-de-rios-sao-classificadas-como-ruim-e-regular-por-sos-mata-atlantica.html

Fonte: Globo Natureza

Em 20 anos, despoluição da Baía de Guanabara vira esgoto

Anunciado com pompa durante a Rio-92, programa já torrou US$ 1,17 bilhão e a baía continua imunda

Por Felipe Werneck

O Dia Mundial da Água – data criada pela ONU e comemorada hoje, 22 de março – tinha tudo para transformar este ano a Baía de Guanabara no cenário de uma festa especial. A três meses da Rio+20, a conferência sobre o desenvolvimento sustentável que deve atrair ao Rio de Janeiro mais de 100 chefes de Estado, a Cidade Maravilhosa poderia mostrar ao mundo a recuperação de sua baía, banhada por dezenas de rios, originalmente cercada por manguezais e antigo hábitat de golfinhos e tartarugas marinhas.

Anunciado há 20 anos, durante a Rio-92, o Programa de Despoluição da Baía de Guanabara começou a ser executado em 1995, foi prorrogado oficialmente sete vezes e, após consumir mais de US$ 1 bilhão, continua inacabado. Hoje, apenas 36% de todo o esgoto gerado nos 15 municípios do entorno é tratado. Um dos maiores símbolos da beleza natural do Rio no passado, a baía recebe em média 10 mil litros por segundo de esgoto sem tratamento. Duas décadas depois, o cartão-postal do Rio de Janeiro continua lindo – mas seu odor é fétido.

Nenhuma das quatro estações construídas ao longo do projeto, que ficou conhecido pela sigla PDBG, está operando plenamente. O programa passou por seis governos desde a assinatura do contrato com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em 1994. Inicialmente, a previsão para conclusão da primeira fase de obras era de cinco anos, chegando a 51% de esgoto tratado. Além do fiasco e do atraso, há questionamentos sobre a qualidade do tratamento. Outra crítica comum é de que tenha havido um desvio do conceito original, mais amplo. Na prática, ficou restrito ao saneamento básico, sem um plano ambiental.

Recursos. O PDBG consumiu US$ 1,17 bilhão em recursos do BID, da Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA) e do governo do Estado. O primeiro desembolso ocorreu no fim de 1994, ano de implantação do Plano Real, e o dólar teve grande variação no período de contrato: chegou a valer R$ 4 em 2002.

Até hoje o esgoto não chega à estação de tratamento de São Gonçalo, inaugurada no fim do governo Marcello Alencar (1995-1998) – faltaram as redes. A estação da Pavuna, projetada para tratar 1.500 litros por segundo, recebe menos de 200. Na de Sarapuí, com a mesma capacidade, são tratados de 600 a 900 litros/segundo.

A maior delas, a de Alegria, projetada para 5.000 l/s, opera com metade disso. As estações da Pavuna, de Sarapuí e de Alegria foram inauguradas no governo de Anthony Garotinho (1999-2002), e o atual governador, Sérgio Cabral Filho, reinaugurou as duas últimas, com tratamento secundário.

No contrato, estavam previstos 1.248 km de redes coletoras de esgoto e 178 mil ligações domiciliares. Foram executados apenas 603 km de redes e 54 mil ligações até novembro de 2006, segundo o último relatório do BID. De acordo com a Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae), foram instalados 697 km de redes coletoras desde 2007, início da atual gestão – o número de ligações domiciliares, também solicitado pela reportagem, não foi informado.

Denúncias. “Os principais problemas do PDBG foram a falta de transparência, de articulação com os municípios, de regulação da Cedae e, principalmente, a fraude cavalar de fazer as estações sem a rede”, afirma o secretário de Ambiente do Rio, Carlos Minc. Autor de uma série de denúncias de irregularidades em obras do programa enquanto era deputado estadual pelo PT, Minc conseguiu em novembro de 2011 a aprovação no BID de um novo empréstimo de US$ 452 milhões para melhorar a coleta do esgoto despejado na baía.

O PDBG estava tão queimado que o programa mudou de nome para Saneamento Ambiental dos Municípios do Entorno da Baía de Guanabara (PSAM).

Minc afirma que o volume de esgoto tratado no início do governo Cabral, em 2007, era de 20% e chegará a 40% ainda neste semestre. “A nossa meta é chegar a 2014 com 65% e na Olimpíada (em 2016) com 80%”, diz.

O presidente da Cedae, Wagner Victer, apresenta números um pouco diferentes. “Quando entramos (em 2007), era pouco mais de 15% e hoje estamos em quase 50%. Vamos chegar a 80% da baía em 4 anos.” A meta apresentada pelo BID junto com o novo financiamento foi mais conservadora: 80% até 2018.

Um símbolo dos erros do programa é o que ocorreu com a estação de Paquetá. Fora de uso por muito tempo, ficou deteriorada, e o governo desistiu de colocá-la em funcionamento.

“Chegamos à conclusão de que era mais barato passar os tubos por baixo d’água e levar o esgoto para a estação de São Gonçalo”, diz Minc. Mas a de São Gonçalo precisa ser refeita. “Ela foi inaugurada três ou quatro vezes e não funciona até hoje”, conta a engenheira Dora Negreiros, que participou da concepção do PDBG e preside o Instituto Baía de Guanabara.

Lixo. Minc afirma que estações de tratamento ficaram secas por até 13 anos “porque a grana para essas obras vinha de fora”. “Já a grana para fazer redes, conexões, era do Fecam (fundo estadual), que ia para tudo, menos para saneamento e ambiente. Rede é debaixo da terra, o que dá voto é estação. São elefantes brancos, monumentos à incompetência, ao descaso, à ilusão.”

Para Victer, os maiores problemas hoje são o lixo – um dos alvos (e fracassos) do programa original – e o fato de algumas empresas não quererem se conectar à rede de esgoto. “Vamos acabar com todos os lixões do entorno da baía este ano”, promete Minc.

A recuperação ambiental da baía é um dos compromissos assumidos pelo governo para a realização da Olimpíada de 2016.

Fonte: O Estado de S.Paulo

Vazamentos de ‘pequeno’ porte sujaram os mares brasileiros este ano com 30 mil litros de óleo

Basta uma rápida busca no site do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para descobrir que só neste início de ano três acidentes envolvendo petróleo despejaram nos mares do país cerca de 30 mil litros de óleo.

A quantidade é pequena, sobretudo, se comparada ao vazamento de 480 mil litros de óleo na Bacia de Campos, no norte fluminense, em novembro passado, que continua a liberar gotículas de óleo, segundo a empresa responsável pelo acidente, a petroleira Chevron.

De acordo com o coordenador de Petróleo e Gás do Ibama, Cristiano Vilardo, ainda não há dados consolidados do número de vazamentos ocorridos em 2011, mas esses “certamente passam de algumas dezenas. A grande maioria, de vazamentos de pequeno porte (menos que 8 metros cúbicos) perante a legislação brasileira”.

O Ibama define como acidentes de grandes proporções aqueles acima de 200 mil litros derramados. Pequeno ou grande, o derrame de óleo pode ter impactos duradouros na fauna e na flora marinhas, se ocorrerem perto da costa, e em alguns casos até condenar à morte o habitat atingido. De acordo com o biólogo Abílio Soares, da Universidade Federal Fluminense (UFF), alguns vazamentos podem demorar mais de 30 anos para serem absorvidos pelo oceano. “Vai depender muito da característica e da magnitude de cada derrame. Mas as medidas devem ser imediatas para a contenção do óleo e limpeza e depois acompanhar as consequências para o ambiente”.

Em Tramandaí (RS), um acidente ocorrido em janeiro com uma monoboia da Petrobras liberou apenas 1.200 litros de óleo, mas seus impactos ainda são sentidos por cerca de 3.500 pescadores da região, de acordo com o pescador Valdomiro Hoffman e coordenador do Movimento Estadual dos Pescadores.
“Já limparam as praias, mas as larvas do camarão, matéria-prima que mais dá lucro para a gente, diminuíram muito de quantidade. Além disso, o acidente aconteceu no período da desova do bagre, que é um peixe muito importante para nós, foi muito prejudicada. Vai reduzir muito a nossa captura no inverno. Toda a bacia foi atingida”, lamentou o pescador.

De acordo com o representante do Ibama, 75 analistas ambientais trabalham no licenciamento federal de petróleo e gás, além de analistas distribuídos em todo o Brasil vinculados à Coordenação Geral de Emergências Ambientais, cujo número não foi informado.

“Não é possível precisar o número ideal de analistas para o trabalho de fiscalização e monitoramento. Muitos acidentes ocorrem por falha humana ou decisões equivocadas de projeto e não poderiam ser evitados com aumento da fiscalização in loco”.

O professor da oceanografia da Universidade Federal de Pernambuco Gilvan Yogui concorda que a fiscalização in loco é realmente complicada, mas o número ainda assim é insuficiente para avaliar os planos das empresas para liberar os licenciamentos.

“Com mais funcionários, a avaliação fica mais criteriosa, há mais tempo para o fiscal se dedicar a um plano específico em vez de vários com prazos apertados. Se a fiscalização é menor as empresas tendem a afrouxar o cuidado com o meio ambiente. O volume de trabalho do pré-sal é muito maior do que o Ibama consegue administrar.”

Em 2011, o Ibama emitiu 624 licenças ambientais, um aumento de 32% em relação ao ano passado. A previsão do governo é que até 2020 haja um aumento de mais de 226% da produção de petróleo, passando de 2,325 milhões para 5,756 milhões de barris/dia.

Dados do Tribunal de Contas da União (TCU) apontam que, entre 2005 e 2009, apenas 0,6% das multas aplicadas pelo Ibama foram pagas.

O advogado especialista em direito ambiental Klaus Maciel elogiou a legislação ambiental brasileira, que segundo ele é eficiente e progressista, mas lamentou que ela não seja aplicada de forma eficiente devido a uma lógica antropocêntrica e mercantilista.

“Precisamos assumir a lógica do ecocentrismo. Não precisa esperar o dano ao homem para que o meio ambiente seja tutelado pelo estado. O fato de não ter causado prejuízos imediatos para o homem, não significa que não houve dano ambiental”.

O advogado criticou a falta de políticas públicas voltadas para a informação sobre os efeitos e a situação de risco que geram os produtos tóxicos utilizados na exploração e produção de petróleo.

“Uma sociedade desinformada não sabe os reais danos que um acidente envolvendo derrame de óleo pode causar ao ambiente e à população. Somente após ter acesso a essas informações, a sociedade pode escolher qual modelo de desenvolvimento energético é melhor para ela”.

Fonte: Reportagem de Flávia Villela, da Agência Brasil, publicada pelo EcoDebate.

Pesquisa mostra que maiores fontes de poluição em rios paulistas são os resíduos industriais e o esgoto doméstico

Estudo feito por uma equipe de sete especialistas ligados à área de saneamento e saúde ambiental, identificou 134 elementos químicos diferentes presentes no trecho urbano dos rios Tietê e Pinheiros.   Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) divulgaram recentemente um estudo com dados sobre as características de dois grandes rios que cortam a capital paulista, Tietê e Pinheiros, mostrando que os elementos encontrados neles são distintos, portanto mereceriam tratamentos diferenciados.

O trabalho de pesquisa, feito por uma equipe de sete especialistas ligados à área de saneamento e saúde ambiental, foi realizado durante o período de agosto de 2007 até dezembro de 2008. Através da análise, puderem ser identificados 134 elementos químicos diferentes presentes no trecho urbano dos rios.

A conclusão a que os pesquisadores chegaram é de que existem tipos diferentes de poluições nos dois rios. Além disso, os fatores que mais prejudicam a qualidade da água são os resíduos industriais e o esgoto doméstico.

No caso do rio Tietê, que recebe também as águas do rio Pinheiros, foram identificadas altas concentrações de fósforo, nitrogênio amoniacal, DBO e detergentes. Esses resquícios dão a ideia de que ele seja mais afetado pelos resíduos domésticos, no entanto, também foram identificados elementos resultantes da indústria, como: pilhas e solventes, produtos usados em limpeza a seco e em atividades de “desengorduramento” de metal.

Já o rio Pinheiros, que também teve elementos exclusivos encontrados em suas águas, registrou-se a presença de compostos agrícolas, mesmo que praticamente nenhuma atividade do tipo seja realizada em seu leito. Uma possível explicação é de que os organoclorados identificados sejam fruto do uso de inseticidas aplicados nas margens do rio para reduzir a quantidade de mosquitos. A maior preocupação é em relação aos impactos que a substância pode ter na contaminação da água, pois é considerada cancerígena.

Para os pesquisadores, os dados comprovam que a grande responsabilidade pela poluição dos dois rios é, em grande parte, da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo). “A concentração de hidrocarboneto da água (algo que pode ser creditado à omissão da Prefeitura) é ínfima quando comparada à presença de substâncias oriundas do esgoto (que deveria ser tratado pela Sabedp)”, explicou o promotor e coautor do estudo, José Eduardo Lutti, do Ministério Público de São Paulo, em declaração ao jornal O Estado de S. Paulo. O rio Tietê ainda recebe o esgoto proveniente de 33 bairros da metrópole.

O trabalho de recuperação dos rios tem sido feito há muitos anos e hoje está na terceira fase. A etapa, iniciada em agosto de 2011, conta com investimentos de R$ 1,5 bilhão e se prorrogará pelos próximos dez anos.

Fonte: CicloVivo/ Tratamento de Água

Especialista diz que eventos climáticos associados à poluição podem provocar catástrofes

Conceitualmente, não existe relação entre poluição e catástrofes naturais. Enquanto a poluição é o resultado da ação humana na contaminação do solo, ou da atmosfera, ou, ainda, do meio aquático, as catástrofes, como erupções vulcânicas e tsunamis, são eventos súbitos da natureza. Mas, segundo o autor do livro “O impacto das catástrofes climáticas na solvência das seguradoras”, René Hernande, eventos climáticos podem potencializar os danos provocados pela poluição à natureza.

Durante a apresentação do tema “Fenômenos naturais, seguros e sustentabilidade”, no I Workshop Inovação e Oportunidades em Sustentabilidade, promovido ontem em São Paulo pela CNseg, René Hernande explicou que a poluição do solo, por exemplo, causada por infiltração de combustíveis, mesmo restrita a uma área limitada, poderá ter seus efeitos ampliados caso ocorra uma inundação. “Os resíduos podem se espalhar por uma área muito maior e ocasionar uma catástrofe ambiental”, afirmou. Efeito semelhante pode ocorrer se a passagem de furacão encontrar pela frente um vazamento em plataforma de petróleo.  “Um furacão pode estar na origem ou na maximização de um problema de contaminação já existente”, disse.

Para René Hernande, a degradação ambiental, ainda que seja tratada como uma questão meramente econômica, é uma grave ameaça à vida. Tanto que a Organização Mundial de Saúde (OMS) realizou um estudo que relaciona a deterioração do meio ambiente com a saúde humana, apontando a prevalência de doenças como diarréia, infecções respiratórias, lesões involuntárias, malárias e outras. Diferentemente da diarréia, que é mais frequente entre classes pobres, as infecções respiratórias, de acordo com o especialista, afetam todas as faixas de população.

René Hernande atribui a causa principal das doenças respiratórias à poluição do ar pela constante emissão de CO2 (dióxido de carbono). A situação é tão grave, segundo ele, que se as emissões de CO2 pudessem ser encerradas, seus efeitos ainda seriam sentidos por muitos anos. Mesmo assim, ele não condena o CO2, que será importante fonte de calor, a seu ver, quando a Terra entrar na era glacial, daqui a 1,5 mil anos.

No presente, porém, o aumento de dióxido de carbono na atmosfera mantém relação com o crescimento das grandes catástrofes naturais. O fato está registrado, de acordo com René Hernande, em um estudo da Munich Re, que relaciona o aumento das catástrofes entre 1950 e 2010 com o crescimento da emissão de CO2. A destruição e as mortes provocadas por esses eventos se relacionam, por sua vez, com o setor de seguros.

Para dar uma ideia da abrangência desses danos, ele apresentou um gráfico da OMS que indica as regiões com maior índice de mortalidade atribuída à poluição do ar. O Brasil e o Chile na América do Sul, juntamente com toda América do Norte e parte da Ásia, são as regiões onde se registraram mais de 5 mil mortes, em 2011.

René Hernande também identificou na frequência de raios no Brasil uma relação com o aumento da poluição. Considerando apenas os dados das regiões monitoradas (Sul, Sudeste e parte da Centro-Oeste), entre 2009 e 2010, São Paulo lidera com 48% das ocorrências, seguida pelo Rio de Janeiro, com 20%. Nesses locais, segundo avaliação do Inpe, a poluição se equipara com o fenômeno El Niño entre os fatores intensificadores de raios.

Mas os brasileiros estão mais preocupados com a preservação ambiental, segundo René Hernande. Uma pesquisa do Ministério do Meio Ambiente, realizada em 2002, revela que 81% dos entrevistados estão dispostos a comprar produtos fabricados de maneira ecológica e que 38% abririam mão de aumentos na produção e no abastecimento de energia, se isso implicasse em melhor tratamento ao meio ambiente. “Algumas empresas acreditam que doar plantinhas e canequinhas são ações sustentáveis. Mas é enrolação. Precisamos levar mais a sério os danos à natureza ou estaremos cometendo suicídio e homicídio”, disse.

Fonte: Viver Online

Ambientalistas lutam por criação de comitê para o rio Mampituba

Local é um dos poucos pontos monitorados no Litoral Norte que, constantemente, está impróprio para banho

Torres é conhecida e proclamada como a mais bela praia do Litoral do Rio Grande do Sul. O título não foi dado à toa. A cidade é privilegiada em sua geografia, com seus morros e paredões de pedra à beira-mar. Entretanto, o município sofre há anos com uma mancha que prejudica sua imagem: a poluição no rio Mampituba e a marca de ter um dos poucos locais no mar do Litoral Norte que, geralmente, está impróprio para banho.

O rio Mampituba delimita, ao Leste, a fronteira entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Os últimos relatórios de balneabilidade apresentados pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) apresentam variações nos pontos impróprios para os banhistas no Litoral Note gaúcho. A presença da região da foz do rio, porém, é uma constante.

Tramita na Justiça Federal um processo movido pelo Ministério Público Federal (MPF) contra o prefeito de Torres, João Alberto Machado Cardoso. O prefeito é acusado de, em sua gestão, não ter implantado um sistema eficaz de tratamento de esgoto na cidade e de não ter eliminado ligações clandestinas que despejam dejetos na beira da praia. Segundo a denúncia, a contaminação da água por bactérias põe em risco a saúde da população, prejudica o bem-estar dos frequentadores de Torres e causa prejuízos econômicos à cidade, principalmente para o turismo.

Também tramita junto ao Judiciário de Santa Catarina uma ação movida pelo Instituto Eco&Ação contra o município de Passo de Torres, que tem sua fronteira com o Rio Grande do Sul demarcada pelo rio, em razão da existência de um lixão a céu aberto próximo das margens do Mampituba. No lado catarinense, resíduos oriundos da extração de carvão e da agricultura (agrotóxicos) somados ao despejo de esgoto sanitário são as causas principais da poluição do rio.

O secretário de Meio Ambiente de Torres, Alziro Ramos, afirma que o problema não é somente de responsabilidade do município. “É uma situação que preocupa bastante. Dezoito municípios estão ligados ao Mampituba, sendo dez em Santa Catarina e oito no Rio Grande do Sul. O único que trata mais de 60% do esgoto coletado é Torres”, enfatiza.

Ramos não concorda com o modo como os relatórios da Fepam são divulgados. Conforme ele, a amostra da água é coletada 200 metros para dentro do rio, em relação à sua foz. O secretário defende uma tese curiosa a respeito da situação. “O que está poluído é o rio, não a foz que deságua no mar. No rio ninguém toma banho, as pessoas se banham na praia”, diz. A prefeitura enviou uma equipe à Fepam para pedir que o modo como o relatório é divulgado seja modificado.

Um grupo de ambientalistas gaúchos e catarinenses luta há anos pela criação do Comitê da Bacia do Rio Mampituba. Atualmente, existe um pró-comitê que depende de tratativas entre os dois estados para a instalação definitiva do órgão. “Temos batalhado para a instalação definitiva. As maiores resistências governamentais para a criação do comitê partem da Agência Nacional das Águas (ANA). Olhando o mapa, eles não veem o Mampituba, ele não existe, pois é uma bacia muito pequena”, observa o ambientalista Tadeu Santos, secretário-executivo do pró-comitê.

Conforme Santos, em 2011 ocorreram avanços, como a publicação de uma portaria por parte da ANA designando os dois estados a criarem o comitê. Agora, depende da iniciativa dos governos gaúcho e catarinense para a efetiva instalação. “O comitê é importante, pois ordena o uso das águas, ele faz esse disciplinamento”, destaca ele, que também é conselheiro da ONG Sócios da Natureza, de Santa Catarina. Os comitês de bacia reúnem todas as partes que atuam no contexto de utilização das águas, sejam eles do setor empresarial, ambiental ou governamental.

O montador de móveis Clóvis Bencke, 46 anos, veraneia há 23 anos em Torres. Morador de Venâncio Aires, ele diz que nunca viu o rio, e consequentemente, a sua foz, limpos. “É uma tristeza. É muita sujeira. No ano passado passei três meses aqui e é sempre a mesma coisa”, afirma, destacando que, se fosse limpo, o rio poderia até ser usado como alternativa para as pessoas se banharem.
Por dividir dois estados, fiscalização ambiental é complexa

A fiscalização ambiental do Mampituba e as consequentes responsabilidades a respeito do mau uso e da poluição de suas águas envolvem diversos atores. Todos os municípios pelos quais o rio passa são responsáveis pelo cuidado na destinação de seus resíduos, sejam eles sólidos, de esgoto sanitário ou oriundos da agricultura. Além disso, como é uma formação natural que divide dois estados, órgãos federais também atuam, pois a Constituição define que as águas que fazem divisa entre estados são de domínio da União. No Estado, a fiscalização da qualidade da água é realizada pela Fepam. Em Santa Catarina, quem faz isso é a Fundação do Meio Ambiente (Fatma).

Para Flávio Augusto de Andrade Strapason, procurador regional da República responsável pelo processo contra o prefeito de Torres, o fato de o rio ser de domínio da União não exclui os órgãos estaduais e municipais de suas responsabilidades. “Eles têm de agir, depois se vê quem tem a competência. Têm de atuar, até porque não são eles que definem se o que está ocorrendo é um crime estadual ou federal. Não pode haver omissão. O meio ambiente é de todos”, afirma. Strapason se utiliza de uma metáfora para exemplificar o que diz. “Se soldados da polícia estadual flagrarem tráfico de drogas em uma rodovia federal, eles têm a obrigação de agir. Depois se encaminha o caso para a instância federal, se for o caso. O que não pode é um lado ficar jogando a responsabilidade para o outro.”

Fonte: Jornal do Comércio

Igam implanta biomonitoramento no Rio das Velhas

O Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), entidade que integra o Sistema Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Sisema), inicia em fevereiro o processo de implantação do biomonitoramento no Rio das Velhas, que será concluído no segundo semestre deste ano. O objetivo é complementar o monitoramento físico-químico, que já é realizado em todo o Estado desde 1997 pelo Igam, por meio do Projeto Águas de Minas.

O biomonitoramento é uma forma de avaliar a qualidade ambiental dos ecossistemas aquáticos e, por consequência, a qualidade das águas. A metodologia mede a resposta de organismos vivos, também chamados de bioindicadores, que compõem o ambiente monitorado a diferentes tipos de contaminação ou poluição.

O biomonitoramento é uma avaliação ecológica do ambiente e resulta numa visão mais ampla do que somente parâmetros físico-químicos, explica a gerente de Monitoramento e Hidrometeorologia do Igam, Wanderlene Ferreira Nacif.

O Rio das Velhas contará com uma rede de 20 pontos, onde o material será coletado. Tanto a coleta quanto a análise serão feitas pela Fundação Centro Tecnológica de Minas Gerais (Cetec). Os dados gerados vão compor o monitoramento feito pelo Igam e servirão de subsídio para a gestão da água no Estado.

Águas de Minas

O Projeto Águas de Minas é responsável pelo monitoramento da qualidade das águas superficiais e subterrâneas de Minas Gerais. Em execução desde 1997, o programa disponibiliza uma série histórica da qualidade das águas no Estado e gera dados indispensáveis ao gerenciamento correto dos recursos hídricos.

Desde 2009, o Igam estuda a implantação do biomonitoramento, visando à adequação do atual monitoramento da qualidade das águas superficiais no Estado de Minas Gerais. Desde 2006, acontece uma experiência semelhante no Jaíba e, a partir da adoção deste método no Velhas, outras redes serão implantadas até atingir todo o Estado.

Os conselhos estaduais de Política Ambiental e de Recursos Hídricos instituíram um grupo de trabalho (GT) para avaliar o assunto por meio da Deliberação Normativa Conjunta Copam/CERH 01/2008. O GT Multidisciplinar é constituído por representantes dos órgãos ambientais estaduais, centros tecnológicos, universidades, entidades usuárias e gestoras dos recursos hídricos e sociedades afins.

Bioindicadores

Os bioindicadores avaliados no biomonitoramento são insetos, crustáceos, moluscos e vermes que compõem a fauna aquática. São bastante diversificados, com espécies que reagem de formas diferentes às condições ambientais.

Fonte: Site do Jornal O Norte