Arquivo da tag: Água

A conta da natureza

Linhas de pesquisas analisam as relações entre população, ambiente e mudanças climáticas

Texto: Maria Alice da Cruz
Fotos:  Pablo Jacob/ Agência O Globo e Antonio Scarpinetti
Edição de Imagens: Tulio Chagas

Eventos naturais extremos, como a chuva que vitimou várias pessoas entre março e abril deste ano, em Teresópolis (RJ), mesmo após a tragédia que atingiu a região serrana fluminense no ano passado, exigem novos olhares para os estudos da dinâmica populacional. As transformações que se apresentam nos últimos anos, incluindo atividades econômicas e mudanças climáticas, sugerem inovações nas pesquisas sobre população e ambiente, inserindo novos componentes importantes para compreender essa relação. Há 15 anos, o professor e demógrafo Daniel Hogan, falecido em abril de 2010, sugeria a inserção das mudanças ambientais globais como forma de tornar mais eficientes os resultados de pesquisas sobre dinâmica demográfica. Seus passos nessa linha de pesquisa, iniciados há 30 anos com a fundação do Núcleo de Estudos da População (Nepo) da Unicamp, continuam a ser seguidos por 20 estudiosos do grupo População e Ambiente do núcleo, de acordo com o sociólogo e doutor em demografia Roberto Luiz do Carmo, um dos coordenadores do grupo, ao lado do professor Alvaro de Oliveira D’Antona. Além das discussões sobre mudanças climáticas e suas relações com a dinâmica social e demográfica, existe uma série de outros aspectos da relação entre população e ambiente em estudo, como por exemplo, os processos de mudança no uso e ocupação da terra em várias partes do país, o processo de urbanização e suas decorrências, a redistribuição espacial da população e sua conexão com os processos ambientais.

Entre outros resultados, os estudos mostram como as mudanças climáticas rebatem na dinâmica populacional. Conforme Carmo, as transformações têm impacto em aspectos relacionados com a própria estruturação da cidade, como, por exemplo, a ocupação pela população de áreas mais vulneráveis. “Esses eventos extremos de chuva, como este último em Teresópolis, representam um conjunto de riscos relacionados às mudanças climáticas que afetará um grupo populacional que já era vulnerável, por uma série de razões sociais, entre as quais a habitação em áreas ambientalmente mais frágeis, expostas a inundações e alagamentos”, adverte Carmo.

De acordo com o demógrafo, com o crescimento urbano não planejado e dirigido pelo capital imobiliário, as pessoas em piores condições econômicas acabaram ocupando áreas de maior suscetibilidade a alagamentos e inundações, alguns dos principais riscos a ser potencializados pelas mudanças climáticas. Antes dessa potencialização, os riscos tinham um significativo impacto sobre a vida das populações que habitam áreas frágeis, segundo Carmo. “Foi esse o espaço que restou para esta população ocupar”, acentua.

Conforme o pesquisador, a leitura que se faz hoje é de que existe uma dívida social em relação a esse processo de urbanização ocorrido no Brasil. “Uma dívida social que a cada ano apresenta sua conta, em forma de vida de pessoas e precisamos começar a pagar como sociedade”, questiona. A urbanização, um dos dois maiores fenômenos demográficos ocorridos na segunda metade do século 20 no país, tem recebido atenção especial do grupo. O segundo, conforme Carmo, é queda da taxa de fecundidade, que provocou um processo de transição demográfica, mas não garantiu avanços no que diz respeito à sustentabilidade. As desigualdades sociais permanecem, fazendo as vítimas da má distribuição de bens naturais e dos riscos ambientais que foram socialmente construídos ao longo da história do país, segundo o professor. “O número de famílias que vivem em situação de vulnerabilidade ainda é expressivo”, acentua.

A transição demográfica faz com que os demógrafos lancem um olhar diferenciado para a dinâmica populacional no Brasil, apesar de todo o movimento em torno da chegada aos 7 bilhões de habitantes no mundo. “Se olharmos para a escala mundial, colocaríamos um peso muito grande na questão dos números absolutos de volume de população, mas se analisarmos um processo recente de população brasileira, veremos que nas últimas três décadas houve um processo tão grande de queda da fecundidade, que começamos a ver o momento que a população vai parar de crescer no Brasil. Mas até que ponto essa questão da diminuição de crescimento efetivamente vai significar uma diminuição da desigualdade social? Não houve transformação muito grande em termos de diminuição das desigualdades sociais”, acrescenta.

Na avaliação de Carmo, o grupo avançou muito no conceito de vulnerabilidade durante um longo período, pensando nele, num primeiro momento, como o reverso da moeda da sustentabilidade. “Começamos a pensar, principalmente, no âmbito desses projetos que temos sobre mudanças climáticas, em termos de adaptação de resiliência. Como os grupos sociais vão se adaptar a esse novo contexto e como é possível pensar essa organização diante desses riscos que poderão ser cada vez maiores”, reflete.

Carmo recorda que, há 20 anos, quando membros do grupo iniciaram as pesquisas sobre a utilização da água e o impacto na dinâmica populacional, a questão não era estudada. Dados mais recentes de pesquisa desenvolvida no Nepo mostram o impacto da expansão do cultivo da soja em larga escala na modificação da paisagem e na nova dinâmica ambiental do Cerrado. O trabalho mostra que a demanda grande por água pode levar a processo muito intenso de uso e até a um conflito pelo uso do recurso num contexto onde existe característica ambiental bastante frágil. A expansão agrícola, segundo ele, demanda uma quantidade maior de água. No Cerrado, principalmente, onde essa atividade se expandiu, a produção é calcada no aumento do uso da irrigação e no uso intensivo de produtos agroquímicos, tendo impacto na qualidade da água. Os impactos em termos de qualidade podem vir a ter impacto em termos de quantidade, no futuro, segundo o pesquisador. Ele enfatiza que todo processo de expansão das atividades econômicas no Cerrado são fundamentais hoje para o país, pois uma parcela significativa da balança comercial brasileira vem da exportação desses produtos, que são primários, mas os impactos precisam ser avaliados.

Em um trabalho dedicado às questões demográficas e hídricas em São Paulo, Rio de Janeiro, Campinas, Santos e no Recife, os pesquisadores observaram que a expansão metropolitana brasileira foi acompanhada de problemas como o aumento da demanda por água e a degradação de recursos hídricos. Essas mudanças refletiram-se no surgimento de significativos grupos populacionais com condições de vida precárias, segundo Carmo. Ele acentua que ao longo dos últimos dez anos houve uma evolução muito importante em termos de aumento da cobertura dos serviços de água, coleta de esgoto no país como um todo, entretanto, em localidades onde não há legislação de recursos hídricos implementada a situação continua difícil em termos de serviços básicos de saneamento para grande parte da população. “Em muitos casos, o que vemos é melhoria da coleta do esgoto, mas com despejo diretamente nos cursos de água. As grandes cidades, entre as quais Recife, ainda enfrentarão uma série de aspectos envolvidos com essa questão da água.”

Ele acrescenta que a região metropolitana de São Paulo, por estar situada na parte mais alta da bacia, não tem muita água disponível, em relação à demanda existente. Por conta disso, a capital paulista capta água do sistema Cantareira, que é da Bacia do Piracicaba. Segundo Carmo, há uma competição por água entre Campinas e São Paulo, e isso certamente se refletirá em 2014, quando a renovação da outorga será discutida.

As novas formas de organização social constituídas em um mundo que passa por grandes transformações, pelo acesso à tecnologia, pela nova cobertura de serviços públicos, pela queda de fecundidade, trazem uma situação de conforto para uma parte significativa da população, entretanto, as questões se colocam aos demógrafos em termos geracionais. “O que nossa geração vai deixar para a de nossos filhos? Um mundo arrasado em que eles terão dificuldade para sobreviver? Nossa discussão vem nesse sentido, nossa geração vive momento de afluência e riqueza que nunca existiu em outro momento da história. Ao mesmo tempo, isso traz uma grande responsabilidade, pois precisamos pensar no que deixar para o futuro.” Para ele, as pessoas que estão num determinado nível social em que se pode desfrutar de tudo o que a tecnologia e os recursos econômicos podem oferecer precisam olhar para o lado, pois há uma parcela da população que não tem acesso.

Trabalhos recentes

A dissertação “Mineração e dinâmica populacional”, de autoria de Vinicius Correa, orientado por Carmo, mostra o impacto da atividade de mineração na dimensão populacional da Serra Pelada. Para o orientador, o trabalho mostra que a mineração deixou um legado de população masculina que impacta até hoje a demografia da região. “É preciso pensar nos impactos populacionais que esses processos deixam em termos de longo prazo”, pontua.

Outra linha desenvolvida dentro do grupo, em parceria com a Prefeitura de Campinas, mostra o impacto da dengue na organização populacional. Os resultados revelam que, por um lado, ao longo da década de 2000, houve duas situações bem diferenciadas: a primeira mostra uma incidência maior da doença numa população com menor acesso aos serviços de água; a segunda, um grupo populacional com todos os recursos econômicos, mas preocupado em manter vasos e plantas nos quais os mosquitos se reproduzem. “Para cada um dos casos é preciso realizar uma política pública diferente. Por um lado, aumento do oferecimento de água tratada, para que as pessoas não tenham que estocar. Por outro lado, uma política massiva de informação e de ação direta para mudança de cultura em relação à manutenção das áreas urbanas, sejam elas privadas ou públicas”, opina Carmo.

Um trabalho de iniciação científica realizado em Altamira (PA), premiado no Congresso de Iniciação Científica de 2011 da Unicamp, mostra elementos importantes para a compreensão da dificuldade de se combater a dengue no Brasil. Segundo Carmo, os resultados mostram que a doença envolve desde questões da urbanização até características da mobilidade espacial da população. “É um resultado interessante em termos de aplicabilidade de políticas públicas, porque a dengue sintetiza toda a complexidade da relação entre população e ambiente com todos os meandros”, justifica o orientador.

Fonte: Jornal da Unicamp

Artigo – Gestão das Águas: ‘Enxugando’ gelo

Por Jetro Menezes*

São Paulo, a maior cidade da América Latina, deveria servir de modelo de gestão pública para todas as outras cidades brasileiras. Mas, ao menos em relação à forma como preserva e trata sua água, vem mostrando mau desempenho. Talvez tenha se esquecido de, nas últimas décadas, levantar questões como: de que maneira a dinâmica urbana interfere no meio ambiente local, especificamente na gestão das águas? Quem consome mais água no Município? Como essa água é tratada? De onde vem o controle do uso, o tratamento do esgoto e a preservação e minimização dos mananciais na Cidade?

Para responder a essas perguntas, que um dia todos os moradores se fazem, fui atrás de pesquisas sobre a questão e resolvi expor aqui o material impresso produzido pela Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, em conjunto com o Instituto de Pesquisa Tecnológica (IPT) e o PNUMA[1], denominado GEO Cidade de São Paulo: Panorama do Meio Ambiente Urbano, do ano de 2004.

A grande maioria dos bairros da Cidade de São Paulo e mais 10 municípios da Região Metropolitana (RMSP) são abastecidos pelo Sistema Cantareira, mas a captação das águas deste sistema é feita em outra Unidade de Gerenciamento de Recursos Hídricos (Piracicaba/Capivari/Jundiaí), numa distância de mais de 100 km da capital. Os fatores que levam a essa condição são: a escassez de novas fontes, a queda na qualidade das águas dos mananciais e o aumento da população – cerca de 11 milhões de habitantes, somente no município. Ainda existe o fator perda. Muita água se perde pelo caminho, seja por meio de vazamentos e procedimentos operacionais dos órgãos do serviço público; água utilizada, mas não medida (ex.: Bombeiros); erros na medição nos hidrômetros; água entregue às edificações ou áreas ocupadas sem hidrômetros; água furtada e as crescentes formas alternativas de abastecimentos sem controle sanitário e outorga para o uso. Esses elementos, agindo em uma cultura vigente de desperdício, geram ainda mais pressão sobre o abastecimento de água potável. Outro ponto importante do levantamento é a deficiência de informações oficiais e confiáveis sobre o sistema de abastecimento.

Quanto à produção de esgoto, o Plano Municipal de Habitação (SP, 2004), a partir de dados do IBGE de 2000, indica que 87,23% dos domicílios contam com a coleta de esgoto. Já nas favelas e loteamentos irregulares, a realidade é outra. Na Represa Guarapiranga, a coleta de esgoto nas favelas é da ordem de 58,24% e nos loteamentos irregulares, de 63,53%. Na Represa Billings, a situação assusta. A coleta é feita em 26,96% das favelas e, no caso dos loteamentos irregulares, em 30,42%. Essas comunidades encontraram sua “solução” para o esgoto, o lançamento direto nos córregos, lagos e rios. Os dados revelam ainda que todos os córregos e rios da RMSP estão poluídos. Para saber se a situação melhorou desde a época das pesquisas, basta andar por São Paulo e atestar, a olho nu – ou se preferir, apenas respirando -, que a situação dos rios e córregos em trechos de área urbana continua ruim e lembra a de um paciente terminal. São esgotos a céu aberto. Olhe para o Rio Tietê e o Rio Pinheiros e diga o que sente. Alguns pontos do rio carecem de… água! E se tiverem água, falta oxigênio. Pelo menos na capital paulistana.

Mas o que me surpreendeu na pesquisa foi descobrir que as tubulações que transportam o esgoto coletado se cruzam com as galerias de águas pluviais e ambos são lançados juntos nos córregos. Estamos “enxugando gelo”. Por que nunca se ouviu falar sobre este problema de cruzamento de tubulações que levam esgoto e água de chuva, com tudo o que ela encontra pela frente, para os principais rios da Cidade? Trata-se do principal problema de poluição dos rios em São Paulo! Aliás, constatei também que não existe um contrato formal entre a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) e a Prefeitura de São Paulo para sanar este problema. A Sabesp realiza o abastecimento público de água no município sob regime de concessão informal. Quem fiscaliza o serviço?

Em São Paulo, a água de torneira é tratada pela Sabesp. Não traz problemas para a saúde, salvo nos casos onde a caixa d’água não tem manutenção periódica. Já aquelas captadas em poços profundos e poços cacimba (rasos) e diretamente nos rios, sem outorga dos órgãos responsáveis e sem tratamento, podem trazer doenças. A OMS (Organização Mundial de Saúde) relata que cerca de 80% de todas as doenças que se alastram pelos países em desenvolvimento são provenientes de água de má qualidade. Bebê-la em condições inadequadas gera febre tifóide, salmonelose, disenteria bacilar e amebiana, cólera, diarreia, hepatite infeccional e giardíase. Ingerir água fora dos padrões de qualidade, sem tratamento adequado, pode gerar doenças graves que podem levar a óbito, sendo a diarreia aguda a mais comum. Em 2003, a Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental), que analisa e monitora as águas subterrâneas, relatava que, dos 14 pontos monitorados existentes na Cidade, 8 estavam em péssimas condições.

O que fazer para minimizar os impactos negativos na água? Recuperar as áreas degradadas e ampliar a cobertura vegetal em trechos de mananciais é ação básica e obrigatória. Porém, o enfoque central, realizar a desconexão cruzada do sistema coletor de esgoto com o sistema de águas pluviais, depende de uma ação conjunta, necessária e inevitável. É urgente impedir o lançamento de esgoto in natura nos córregos, rios e lagos na Cidade de São Paulo. O futuro acena para nós cobrando um alto custo por não cuidarmos da água de que tanto necessitamos. Ou pensamos nele ou vamos beber esgoto…

Referência bibliográfica:

GEO Cidade de São Paulo: panorama do meio ambiente urbano/SVMA, IPT. São Paulo : Prefeitura do Município de São Paulo, Secretaria do Verde e do Meio Ambiente. Brasília : PNUMA, 2004.

(*) Jetro Menezes, 43 anos, é gestor e auditor ambiental, especialista (Latu Sensu) em Saneamento Ambiental, responsável pela JetroAmbiental Consultoria (www.jetroambiental.com.br). Foi coordenador do Programa de Coleta Seletiva da Prefeitura de São Paulo e atualmente é diretor de Meio Ambiente da Prefeitura de Franco da Rocha e colunista de revista Plurale.

Fonte: Portal Ecodebate

Ásia corre o risco de ver deflagrada uma guerra da água; Planos da China de usar rios que nascem no Tibete alarmam os países vizinhos

Atravessando o planalto do Tibete, cinco grandes rios – Indus, Brahmaputra, Irrawaddy, Salween e Mekong – carregam a água das geleiras dos Himalaias e das monções que abastece 1,3 bilhão de pessoas em vários países do Sudeste da Ásia. Agora, no entanto, este fornecimento está ameaçado pelos planos da China e de outros países da região de construir usinas, barragens e desvios em seu curso, o que pode gerar o primeiro grande conflito mundial em torno deste recurso cada vez mais escasso.

A luta pelo controle desta verdadeira “caixa d’água” continental teve seu primeiro contragolpe desferido pela Índia, onde a Suprema Corte do país ordenou no mês passado o início dos trabalhos para a construção de canais que vão interligar os principais rios indianos. No centro do projeto está uma estrutura de 400 quilômetros de extensão que vai desviar a água do Brahmaputra para o Ganges, visando a irrigar terras cultiváveis sedentas a cerca de mil quilômetros ao Sul.

A decisão indiana é uma reação aos planos chineses de construir barragens e desviar o Brahmaputra, um dos últimos grandes rios do mundo ainda sem modificações no seu trajeto pelo homem, mais acima no seu curso, no Tibete. No Cânion de Tsangpo, o governo da China pretende levantar duas gigantescas hidrelétricas, cada uma gerando mais do dobro da energia da usina de Três Gargantas, no Yangtsé, atualmente a maior do mundo. Além disso, ainda mais alto no curso do Brahmaputra, os chineses querem criar um desvio que levaria até 40% de seu fluxo para as planícies do Norte do país.

O choque entre os projetos de China e Índia – duas potências nucleares -, no entanto, deve fazer uma vítima ainda mais vulnerável: Bangladesh. O país depende do Brahmaputra para conseguir dois terços de toda água que consome, grande parte usada para a irrigação dos campos de arroz durante a longa estação seca da região. Com o fluxo do rio desviado e reduzido, cerca de 20 milhões de agricultores de Bangladesh podem ver suas plantações, e eles próprios, morrerem de sede.

“No caso do Ganges-Brahmaputra, já existem barragens como a de Farakka, construída pela Índia, que trouxe impactos reduzindo áreas úmidas [pântanos] em Bangladesh”, lembra Benedito Braga, professor de Engenharia Civil e Ambiental da USP e vice-presidente do Conselho Mundial de Água. “Mas não acredito que veremos um choque armado entre países por causa disso. Iniciativas como a comissão multilateral para gestão da bacia do Rio Mekong e a South Asian Association of Regional Cooperation (Saarc), fundada em 1985 com representantes do Butão, Índia, Paquistão, Nepal, Bangladesh e Sri Lanka, mas infelizmente sem a presença da China, mostram que há maior potencial para colaboração do que para conflito no caso da gestão das águas.”

Controle chinês – Até recentemente, a China havia focado a construção de suas usinas em rios que correm dentro do país. Mas, diante da explosão na demanda por eletricidade devido ao forte crescimento econômico, os chineses começaram a se voltar para os rios transnacionais. Nos últimos anos, o país já construiu uma série de barragens em afluentes do Brahmaputra e a primeira no curso principal do rio, a Usina de Zangmu, orçada em US$ 1 bilhão, deverá estar pronta em 2014. Depois, será a vez das obras no Cânion de Tsangpo, onde seriam instaladas as usinas gigantes de Motuo (38 gigawatts) e Daduqia (42 gigawatts). Para ser ter uma ideia do tamanho destas barragens, a usina das Três Gargantas, atualmente a maior do mundo, tem capacidade instalada de 22,5 gigawatts, enquanto Itaipu pode gerar até 14 gigawatts.

Mas a China não está de olho só na água dos rios tibetanos que fluem para Índia e Bangladesh. Suas ambições também preocupam outros países vizinhos. Outro atrito recente envolve a barragem de Myitsone, que os chineses estão construindo no Rio Irrawaddy, no Norte de Mianmar. Há três anos, a junta militar que governava o país aprovou a construção, embora 90% da energia que vai ser gerada na usina de 6 gigawatts será exportada para a China. No fim do ano passado, porém, o governo militar de Mianmar suspendeu as obras depois que dezenas de pessoas morreram em choques entre a polícia e moradores locais, cujas vilas serão inundadas pelo reservatório.

A confusa situação política em Mianmar deixa em dúvidas o destino das usinas de Myitsone e 12 outras planejadas pelos chineses na região – seis no Rio Irrawaddy e seis no Rio Salween. Muitas das barragens estão em áreas remotas designadas Patrimônio Mundial pela Organização das Nações Unidas por seus ecossistemas únicos de florestas e água doce. Depois que a construção da usina Myitsone foi paralisada, veio a público um relatório ambiental de 900 páginas encomendado pela própria China desaconselhando as obras da barragem pelo perigo de inundação dos ecossistemas listados pela ONU.

Já o impacto do projeto indiano de desviar o Brahmaputra para alimentar o Ganges foi avaliado por Edward Barbier, da Universidade do Wyoming, nos EUA, e Anik Bhaduri, do Instituto Internacional de Gerenciamento de Água em Nova Déli. Eles alertam que uma redução de 10% a 20% no fluxo do rio poderia deixar secas grandes áreas em Bangladesh. Além disso, com um fluxo menor de água doce, a água salgada da Baía de Bengala invadiria boa parte do delta do rio, causando uma verdadeira catástrofe ambiental.

A melhor prova de que as usinas podem provocar danos ecológicos graves está ali perto, no Rio Mekong, onde a construção de barragens pela China está mais adiantada. Até agora, o país já levantou quatro das oito hidrelétricas que pretende instalar no rio. Estas barragens capturam o fluxo de água das monções e o liberam durante a estação seca. O governo chinês argumenta que, ao regular o fluxo do rio, elas são benéficas, mas há três anos o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) alertou que o fim do pulso natural de inundação e seca é uma “ameaça considerável” aos ecossistemas na parte baixa do rio. No estudo para o Pnuma, Ky Quang Vinh, do Centro Vietnamita de Observação dos recursos Naturais e Meio Ambiente, mostrou que um pulso mais fraco faria a água salgada do Mar do Sul da China invadir mais de 70 quilômetros adentro do delta do Mekong, destruindo grandes extensões de plantações de arroz na principal região de produção do segundo maior exportador mundial do cereal.

A luta pela água dos Himalaias está acirrada, mas muitos especialistas argumentam que o aproveitamento do potencial hidrelétrico da região é fundamental se o mundo quiser que países como a China e a Índia alimentem suas crescentes economias com fontes de energia de baixa emissão de carbono. Numa região onde o abastecimento de água já está no limite, no entanto, a disputa pelo recurso pode acirrar os ânimos. A China foi um dos países que votou contra proposta de tratado da ONU para regulamentar o aproveitamento de rios transnacionais, deixando seus vizinhos praticamente como reféns de seus projetos.

“Na verdade, esta resolução sobre usos não navegáveis de rios transfronteiriços está para ser ratificada desde 1997″, lembra Benedito Braga. “Há 15 anos, portanto, o sistema das Nações Unidas não consegue colocar em prática esta proposta de regular o aproveitamento pelos países dos rios que correm além das suas fronteiras políticas”.

Braga destaca ainda que o próprio Brasil, Turquia, EUA, Israel e Áustria, entre outros países, são contra os termos da proposta da ONU por entenderem que ela interfere com o princípio da soberania dos Estados.

“A perspectiva para solução desta questão seria o conceito moderno de compartilhar os benefícios advindos da gestão racional e integrada dos recursos hídricos das bacias transfronteiriças e não simplesmente compartilhar a água”, defende. “Um exemplo típico disso é o aproveitamento hidrelétrico de Itaipu, onde Brasil e Paraguai dividem a energia gerada na bacia do Rio Paraná”.

Fonte: O Globo

Terra leva um ano e meio para repor recursos consumidos anualmente, diz estudo

Os seres humanos consomem, a cada ano, um montante de recursos naturais 50% superior ao que a Terra pode produzir, de forma sustentável nesse mesmo período. Os dados são da ONG WWF.

Macaco selvagem (Foto: BBC)

Relatório feito pelo WWF diz que 30% de espécies de vida selvagem já foram perdidas desde 1970

De acordo com um relatório “Living Planet”, divulgado nesta terça-feira, a Terra leva um ano e meio para repor todos os recursos que a população mundial consome a cada ano. Para muitos ambientalistas, a Rio+20, conferência internacional que será realizada no Brasil em junho, é uma oportunidade para os países aumentarem de forma urgente a proteção à natureza.

“A conferência Rio+20 é uma oportunidade para o mundo tratar com seriedade a necessidade de tornar o desenvolvimento sustentável”, disse David Nussbaum, presidente do WWF na Grã-Bretanha. O Brasil ficou em 56º lugar.

“Nós precisamos aumentar o senso de urgência, e eu acho que em última instância isso não diz respeito somente às nossas vidas mas também ao legado que vamos deixar para as futuras gerações”, acrescentou.

Desde 1966, a demanda por esses recursos se duplicou, acentuando as diferenças entre habitantes de países ricos e pobres. Se cada morador da Terra consumisse como um americano, por exemplo, seriam necessários quatro planetas para responder a essa demanda.

Análises feitas por outra organização, a Global Footprint Network, também mostram um cenário preocupante.

Os cálculos têm como objetivo dimensionar o quão sustentável nossa sociedade global é em termos de sua pegada ecológica – uma medida composta por fatores tais como a queima de combustíveis fósseis, o uso de áreas agrícolas para produção de alimentos, e o consumo de madeira e peixes capturados em ambiente selvagem.

No ranking elaborado pela organização, os Estados Unidos ficam entre os dez países como maior pegada ecológica. Entre os primeiros da lista aparecem ainda Dinamarca, Bélgica, Austrália e Irlanda.

No ranking elaborado pela organização, o Golfo Pérsico emerge como a região com a pegada ecológica per capita mais alta do mundo, com Catar, Kuwait e Emirados Árabes Unidos como os países menos sustentáveis.

Áreas tropicais

O estudo mostrou, ainda, que a exploração dos recursos naturais provocou uma redução de 30% da vida selvagem no planeta desde 1970. Entre as espécies tropicais a redução foi ainda maior, de 60%.

O documento combinou dados de mais de 9.000 populações de animais ao redor do mundo para chegar a esta conclusão. Seus principais autores, os pesquisadores do WWF, dizem que o progresso global quanto à proteção da natureza e o combate às mudanças climáticas ainda é “glacial”.

O relatório usa dados sobre tendências populacionais de várias espécies ao redor do mundo compilados pela Sociedade Zoológica de Londres (ZSL, na sigla em inglês). Na edição mais completa de seu relatório até hoje, a ZSL examinou um número recorde de espécies (2.600), e populações destas espécies (9.104).

As espécies mais afetadas são aquelas encontradas em rios e lagos das regiões tropicais, que apresentam uma redução de 70% desde 1970. O diretor do Instituto de Zoologia da ZSL, Tim Blackburn, fez uma analogia entre as cifras ambientais e o mercado financeiro.

“Haveria pânico se o FTSE [índice da Bolsa de Londres] mostrasse um declínio como este. A natureza é mais importante do que o dinheiro. A humanidade pode viver sem dinheiro, mas nós não podemos viver sem a natureza e os serviços essenciais que ela nos traz”, avaliou.

Uma das recomendações à Rio+20 diz respeito a este conceito, e aconselha os governos de todo o mundo a utilizarem indicadores econômicos que incluam uma valoração do “capital natural”.

Escassez d’água

Uma nova medida desenvolvida pelo WWF permite rastrear a escassez de água em 405 sistemas de rios ao redor do mundo com periodicidade mensal.

A análise revela que 2,7 bilhões de pessoas (quase metade da população mundial) já têm que lidar com falta d’água por ao menos um mês todos os anos.

O relatório destaca alguns exemplos de progresso quanto à sustentabilidade, tais como um programa no Paquistão que ajudou fazendeiros de algodão a reduzirem o uso de água, pesticidas e fertilizantes gerando uma colheita semelhante.

Os dados também mostram algumas áreas que precisam de atenção urgente, tais como uma taxa mundial de desperdício de alimentos de 30% causada por comportamento irresponsável nos países mais ricos e a falta de infraestrutura de armazenamento em nações em desenvolvimento.

David Nussbaum, presidente do WWF na Grã-Bretanha, compara os dados com o mercado financeiro ao dizer que não é tarde demais para alterar as tendências em curso, mas que “precisamos lidar com isto com a mesma urgência e determinação com as quais lidamos com a crise financeira sistêmica global”.

Fonte: BBC Brasil

‘Permissões para poluir não são commodities’, afirma Amyra El Khalili

Por Fabiano Ávila   

A economista Amyra El Khalili é uma das maiores especialistas brasileiras sobre o setor financeiro e foi a primeira a cunhar o termo commodities ambientais. Com mais de duas décadas de trabalho dedicadas ao mercado de futuro e de capitais, tendo sido uma das primeiras operadoras de pregão da BM&F, Amyra possui uma visão bastante crítica das ferramentas de mercado com o objetivo da conservação ambiental.

Instituto CarbonoBrasil - Sabemos que o modelo atual de capitalismo predatório não é o ideal para o desenvolvimento da humanidade, porém, infelizmente, a única coisa que move a sociedade para agir parece ser o seu bolso. Se as ferramentas de mercado, colocando um preço nos recursos naturais, não são adequadas para lidar com a exploração massiva dos ecossistemas como muitos acreditam, qual seria o melhor modelo?

Amyra El Khalili - A crítica procedente a este modelo capitalista é justamente no que está sendo precificado, ou seja, os ecossistemas e os serviços ambientais que são aqueles que a natureza nos oferece gratuitamente. De fato, quando há escassez, a consequência será a mercantilização destes ‘recursos naturais’ (como chamamos em gestão ambiental), das matérias-primas (como chamamos na indústria) ou da megadiversidade e dos ecossistemas (como chamamos no ambientalismo). Veja você que dei três nomes diferentes para a mesma coisa! E cada um desses nomes tem um entendimento diferente do que representam.

Então o que propomos é um novo modelo, onde esta precificação (formação e preços) seja calculada diretamente no ‘produto’ e não na matriz ambiental que gera o produto. Quando indicamos as sete matrizes para produção de “commodities ambientais” (água, energia, biodiversidade, florestas-madeira, minério, reciclagem e redução de poluentes –água, solo e ar), estamos falando de “mães ambientais”, dos ecossistemas e de processos de gestão ambiental e não de ‘comoditizar’ (transformar em mercadorias) estas matrizes. Pois as matrizes ambientais são bens difusos (de uso público) e processos (conhecimento e tecnologia) e devem ser administradas pela sociedade conjuntamente com os governos e iniciativa privada.

Acontece que este modelo econômico do capitalismo predador entrega a administração, a gestão e os lucros diretamente nas mãos da iniciativa privada com a conivência e aval dos governos que se submetem a essa dinâmica neoliberal, transferindo suas responsabilidades para as corporações.

Há soluções quando buscamos o caminho do meio, ou seja, construindo um novo modelo onde sejam valorizados os conhecimentos tradicionais, a preservação aliada à conservação ambiental com as comunidades que vivem nestes habitats naturais. Exemplifico: o doce de goiaba da Associação das Mulheres Produtoras de Goiaba de Campos dos Goytacazes pode ser uma “commodity ambiental”. O que deveria ser precificado? A goiabeira? Não. O doce de goiaba, que é produto gerado da goiabeira. A goiabeira é uma árvore que pertence à floresta nativa ou a um reflorestamento de espécies exóticas. Esta árvore é parte do ecossistema. A goiabeira manejada, que tem seus frutos recolhidos corretamente com o plantio de outra muda no seu entorno, é naturalmente uma produtora de serviços ambientais, pois, sequestra carbono, mantém a cobertura vegetal, alimenta animais e aves, recompõe a vegetação degradada e promove a recarga de aquíferos, entre outras funções. Essa valoração deve ser contabilizada no produto final que a goiabeira gerou: o doce de goiaba e o lucro deste doce devem ser divididos entre a Associação de Mulheres que os produziu. Não é monocultura da goiaba, mas diversificação de produção. Assim sendo, quando não for tempo de goiaba, passam a produzir doce de cagaita, e quando não for tempo de cagaita, produzem doce de pequi e assim por diante. A monocultura gera impactos ambientais. Para manter um serviço ambiental, é necessário também modificar o modelo de produção e todo complexo que envolve essa produção. Veja que o modelo econômico contempla uma associação ou cooperativa, um grupo, e não um investidor capitalista ou multinacional que produz doce de goiaba para venda industrial em supermercados. Essa é a questão: quem será beneficiado por cuidar dos ecossistemas e como se dará a gestão e resultados obtidos com os ‘ecossistemas’.

ICBr – Você poderia explicar o conceito de commodities ambientais e qual a importância de fazer a diferenciação entre elas e os créditos de carbono, por exemplo?

Amyra - A ‘comoditização’, processo de produção e qualidade para o sistema bursátil (da bolsa de valores) gera altos impactos ambientais. Exige cada vez mais tecnologias de ponta, como biotecnologia, geoengenharia, nanotecnologia, maquinário pesado que utiliza cada vez menos mão de obra, monocultura intensiva e cada vez mais e mais avança fronteiras agrícolas (soja, milho, cana, café, etc..) e de exploração mineral (petróleo, minério de ferro, ouro, prata, aço,etc..); é o que chamamos de commodities convencionais. Se a ‘comoditização’ gera altos impactos ambientais e é contrária ao processo natural dos ecossistemas em tempo e conservação – por serem necessárias para atender a demanda do mercado de derivativos altas escalas de produção, promovendo concentração de riquezas e cada vez empregando menos – como uma commodity pode ser ambiental?

Para produzir uma ‘commodity ambiental’ é necessário compreender o que significa ser ambiental, ou seja, atender o econômico, o social e o ecológico. Assim sendo, o modelo econômico deve ser o contrário da commodity convencional. Na commodity convencional o sistema financeiro está no topo do triângulo, pois é quem decide quais serão os critérios de produção, certificação, contratos mercantis e comercialização das commodities convencionais; já nas commodities ambientais, o excluído deve estar no topo deste triângulo, pois os povos das florestas, as minorias, as comunidades que manejam os ecossistemas é quem devem decidir sobre esses contratos, critérios e gestão destes recursos, uma vez que a maior parte dos territórios lhes pertencem por herança tradicional. No meio ambiente urbano, chamamos as comunidades para decidir sobre estes critérios de produção e todo aparato de instrumentos econômicos considerando que a favelização, a pobreza, a miséria que as levam para as regiões de riscos ambientais, como beiras de rios, encostas de morros, áreas de lixões; enfim, há toda uma discussão com a sociedade para identificarmos as matrizes ambientais a serem preservadas e quais seriam os produtos gerados por estas matrizes.

Veja então a confusão conceitual na qual se chegou: os créditos de carbono são certificados que pretendem (pelo menos em tese) reduzir a poluição, portanto não são commodities convencionais, já que poluição não deveria ser mercadoria, e muito menos são commodities ambientais. Tanto não são, que até o presente momento não existe ainda um arcabouço jurídico para os créditos de carbono no Brasil. E no exterior são definidos pela imprensa especializada em finanças e pelos legisladores dos países europeus que os negociam como ‘permissões para poluir’, com cotas de permissões autorizadas por seus comitês de regulação.

Portanto, chamar ‘créditos de carbono’ de ‘commodities ambientais’ somente criará confusão conceitual e postergará cada vez mais a regulamentação desse instrumento econômico, haja vista que todo operador de commodities sabe perfeitamente que quando opera no mercado spot (à vista) ou nos mercados futuros (derivativos) está negociando estoque de produtos e não a redução de estoques, até por que se for redução de estoque (negativar o produto) não há como realizar uma engenharia financeira nos mercados de derivativos (futuros). Se no futuro a poluição acabou por que vamos projetar seu preço?

Assim sendo, se os mercados de derivativos estão negociando ‘créditos de carbono’ significa que a poluição está sendo tratada como ‘commodity’ e que não está sendo reduzida a poluição; pelo contrário, estão projetando no mercado futuro que ainda haverá estoques de carbono na atmosfera para ser negociado. O que estimulará o aumento da poluição.

E se for comprovado que é desta forma mesmo que estão negociando os créditos de carbono, como estão denunciando na imprensa internacional com o caso do HCFC-22 e do HFC-23, os chamaremos de ‘commodity suja’, mas jamais incorreremos no absurdo conceitual de chamá-los de ‘commodities ambientais’.

ICBr – Recentemente, acompanhamos o lançamento da Bolsa Verde do Rio de Janeiro e o anuncio de um futuro mercado de carbono no estado. Como você enxerga essas iniciativas?

Amyra - Confesso que ainda não compreendi como se dará a ‘operacionalização’ desta Bolsa e quais são as regras adotadas para a comercialização dos Créditos de Carbono e demais Créditos no estado do Rio de Janeiro, quais são as salvaguardas, o sistema de compensação, as avaliações de riscos sistêmicos e nem a engenharia da coisa.

Soube pela imprensa e ainda há pouca informação para avaliarmos. Não é tão simples formar um mercado regional de créditos de carbono, de efluentes e dos produtos anunciados pela Bolsa Verde. Fiquei confusa quando recebi a notícia, pensei que fosse o Programa Bolsa Verde do Governo Federal, depois em outra notícia o repórter chamava os tais ‘créditos’ de ativos ambientais, de commodities e de valores mobiliários (ações).

Em outra matéria li a declaração de um dos idealizadores afirmando que todos esses créditos são ‘commodities ambientais’ e que ainda não existia uma Bolsa de Commodities Ambientais. Com esta declaração fiquei com a impressão de que estão passando por cima de um debate público sobre ‘commodities ambientais’ com centenas de relatórios produzidos em diversos estados brasileiros assinados por centenas e centenas de lideranças comunitárias, cientistas e ambientalistas. Se for isso mesmo, não nos surpreende o modus operandi. Recentemente fomos vitoriosos em ação judicial que moveu o Sindicado dos Economistas no Estado de São Paulo contra a ONG CTA. Foi comprovado judicialmente todo aparato técnico-científico que envolvem os direitos autorais sobre o Projeto BECE, originado do Projeto CTA, de minha autoria. Ganhamos o processo na 1ª e 2ª instância. Uma vitória retumbante contra um sindicato forte que congrega em torno de 25 mil economistas paulistas.

Creio que os idealizadores da Bolsa Verde também estão ignorando que a BovespaBM&F tem o registro junto aos órgãos reguladores dos créditos de carbono. Eu, pessoalmente, na qualidade de ex-operadora e ex-consultora de commodities da BMF, acho muito difícil que a BovespaBM&F abra mão destes royalties. Aliás, se a BovespaBM&F ainda não fez mais do que está fazendo é porque encontrou falhas nos desenhos destes instrumentos que podem colocar em risco o seu sistema de salvaguardas. Prudência faz parte da sabedoria de quem conhece muito bem o que é risco sistêmico e enfrenta um processo no Caso do Banco Marka e FonteCindam.

ICBr – Considerando o modelo do ETS californiano, onde apenas uma pequena fatia das cotas de emissões pode ser suprida com offsets, você acha que seria um modelo mais interessante a ser seguido?

Amyra - Se ocorrer uma falha no desenho mercadológico do instrumento econômico lançado no mercado, mesmo que seja em teste, é muito difícil efetuar correções. O problema está na forma com que os títulos estão circulando no sistema. Executar arbitragens, desenhar opções nos derivativos e outras engenhocas para suprir uma falha de risco não modifica erros estruturais do contrato financeiro.

ICBr – Existem vários casos de fraude e de especulação nos EU ETS, no MDL e até no REDD. Esses fatos negativos fazem parte de um aprendizado para deixar essas ferramentas mais sólidas ou elas possuem tantos problemas fundamentais que continuaremos a ver esse tipo de coisa?

Amyra - É como disse anteriormente, se o sistema financeiro compreender estas ‘permissões para poluir’ como ‘commodities’, não tem mais como fazer correções, pois desencadeará uma série de operações sem controle.  As fraudes ocorrem por que há vácuos na legislação, na implantação, na regulação e na comercialização. Quando um contrato é aprovado para ser negociado em Bolsa, tem que ter um estudo de risco sistêmico, a justificativa de que esse instrumento não causará um dano para a economia. Por este motivo também é preocupante a movimentação nos mercados voluntários e nos mercados de balcões (fora das Bolsas). Toda argumentação técnica científica para os créditos de carbono ancorados no MDL e agora as propostas para o REDD são de fatores ambientais, mas não de cálculos financeiros compreendendo a dinâmica e a velocidade com que os mercados negociam. Portanto esse aprendizado, na prática, pode custar muito caro para o meio ambiente, e se prejudicar sua credibilidade quem pagará essa conta será a humanidade.

ICBr – A Rio+20 está chegando e muitos comentam que a conferência já começa enfraquecida, inclusive sem possuir o devido foco. Qual sua opinião sobre o evento?

Amyra - Novamente as confusões conceituais estão no foco da questão. Ainda é confuso o conceito de economia verde. Na verdade a crítica sobre esta expressão ‘economia verde’ se dá por entenderem os movimentos sociais, ambientalistas e cientistas renomados que é apenas a reprodução do capitalismo predatório agora sobre as riquezas naturais, sem uma proposta concreta de mudança no modelo econômico e sem metas estabelecidas que respeitem os direitos fundamentais, como os princípios acordados na Rio-92: o Princípio do Poluidor Pagador, o Princípio da Precaução, o Princípio das Responsabilidades Comuns porém Diferenciadas.

No entanto, a Rio+20 está propiciando uma discussão salutar sobre a economia que vivemos, que é a economia de mercado para a economia que queremos. Uma nova economia. Se colocarmos todas as variáveis na balança, independentemente do resultado final dos documentos que serão produzidos na Rio+20, estaremos provocando uma discussão fundamental para iniciarmos o processo de transição do capitalismo predatório para uma economia justa, socialmente digna, politicamente participativa e integrada e ambientalmente sustentável. Essa será a esperança do Projeto BECE e a razão de existir da Aliança RECOs (Redes de Cooperação Comunitária Sem Fronteiras), e por isso apoiamos a Cúpula dos Povos, movimento paralelo à Rio+20, como contraponto ao discurso oficial.

ICBr – E como está o projeto BECE-Brazilian Environment Commodities Exchange (Bolsa Brasileira de Commodities Ambientais) e a Aliança RECOs?

Amyra - A ONG RECOs – Redes de Cooperação Comunitária Sem Fronteiras (antiga ONG CTA) – nasceu do projeto de educação financeira nos mercados de capitais que idealizei e coordenei (1996 a 2003) para o Sindicato dos Economistas (SP). Este projeto era, a princípio, uma consultoria para a Bolsa de Mercadorias & de Futuros (1990) na gestão de Dorival Rodrigues Alves, falecido em 1999, vítima de câncer, um dia antes de terminar o segundo curso patrocinado pela BM&F para formação dos CTA’s (Consultants, Traders and Advisors – Geradores de Negócios Socioambientais nos Mercados de Commodities). Desde sua morte, decidi que este projeto seguiria seu caminho natural como Organização da Sociedade Civil e hoje como rede internacional, a Aliança RECOs.

Atualmente, a aliança é uma teia de intensas relações afetivas (clusters), ou seja, é uma rede solidária unindo produtores e difusores de informações, com o objetivo de registrar a história do desenvolvimento sustentável, fomentar e estruturar o mercado de “commodities ambientais” e “commodities espaciais” desde o Brasil de um novo modelo econômico para América Latina e o Caribe.

A Aliança RECOs está implantando, há mais de uma década, o Projeto BECE (sigla, em inglês, de Bolsa de Commodities Ambientais), que até então era apenas uma proposta, debatida por seis anos em redes virtuais, com mensagens eletrônicas, palestras, seminários, cursos e atividades culturais no Brasil e no exterior. O nome está em inglês em função também da linguagem financista universal e, em especial, por uma saudável provocação ao Banco Central, pois o codinome BECE significa: B de Banco, E de Ecologia, C de Central, e E de Economia. Hoje, a Aliança RECOs conta com a parceria de centenas de lideranças, entidades e instituições de peso nacional e internacional.

O estudo técnico-científico de origem brasileira ocorreu no final de 1989 e começo de 1990, motivado pela concentração de riscos nos mercados de futuros, chamados derivativos, quando um grupo de operadores de commodities convencionais discutia o quanto ganhavam seus clientes e, proporcionalmente, quantas pessoas morriam nas guerras para cada dólar lucrado nas bolsas de commodities e futuros com petróleo, metais e moedas. Fizemos, então, uma aposta: quem conseguiria desenvolver uma engenharia financeira que invertesse o modelo ortodoxo das operações financeiras e, ao invés de ganhar com a morte, criar um mecanismo que oferecesse ganhos com as vidas de mais e mais pessoas. Destes apostadores, fui a única pessoa que sobreviveu e levou a aposta adiante (meus amigos faleceram em acidentes, cometeram suicídio ou tiveram enfarto porque não aguentaram a pressão dos mercados).

BECE é um Projeto Open (construído abertamente) e somente caminha com consulta e participação pública. Não decidimos nada, absolutamente nada a portas fechadas. Entendemos que mais importante do que desenvolver Bolsas de Valores e de Commodities era construir e implantar um novo modelo econômico para América Latina e o Caribe, formando redes de cooperação técnico-científicas alicerçadas no tripé: educação, informação e comunicação. Também concluímos que não precisamos de uma Bolsa de Commodities Ambientais, mas de uma Aliança como é a RECOs – Rede de Cooperação Comunitária Sem Fronteiras com o tripé: legitimidade, credibilidade e ética. Sem estes tripés solidificados não há como formar novos mercados emergentes e atender as reivindicações da sociedade, ou seja, nenhuma economia se sustenta!

ICBr – O Brasil é apontado, até por toda a sua riqueza natural, como um berço perfeito para a chamada economia verde. O que falta para vermos esse conceito virar realidade?  Amyra - Pois é essa a preocupação que temos! Se o conceito ‘economia verde’ caminhar na direção da apropriação dos recursos naturais via mecanismos financeiros será uma tragédia, mas se conseguirmos chegar a um entendimento de que podemos promover uma nova economia, o Brasil sem dúvida estará à frente de uma revolução estrutural de todo sistema financeiro mundial. Temos propostas, ideias e competências na ciência, na academia, nos mais diversos setores da sociedade e uma vontade enorme com entusiasmo, que é da característica peculiar de sermos brasileiros, apaixonados pela vida e acolhedores. Temos o que muitos já não têm: natureza e solidariedade. E somente conseguiremos avançar 20 anos na frente desta conferência no Rio de Janeiro se os jornalistas ambientalistas e investigativos forem capazes de traduzir todos esses conceitos e propostas, como está fazendo nesta entrevista o site do Instituto CarbonoBrasil.
Fonte: Instituto CarbonoBrasil

Artigo – Água: um direito de todos os seres vivos

Por José Eustáquio Diniz Alves*

A água é a base da vida. Nenhum ser vivo pode viver sem ela. Embora na superficie do globo tenha mais água do que terra, a quantidade de água potável e limpa é pequena e não se renova integralmente no ciclo hídrico. Nas últimas décadas, além de sugar e reduzir a capacidade dos aquíferos, a humanidade tem acelerado o processo de destruição das nascentes e aumentado a poluição dos rios, lagos, geleiras e oceanos. O acesso à água é um direito humano básico. Mas este direito só será eticamente justificável se a humanidade garantir o acesso à água para as demais espécies do Planeta. A água é de todo mundo e não pode haver exclusividades.

De toda a quantidade de água da Terra, apenas 2,5% são potáveis. Desta pequena parcela, 69% estão congeladas nas regiões polares e 30% misturadas no solo ou estocadas em aquíferos de difícil acesso. Só resta 140 mil quilômetros cúbicos de água para serem utilizadas por toda a biodiversidade do Planeta.

Uma fonte excelente de conhecimentos sobre os problemas hídricos do Brasil e do mundo está no livro do jornalista e ambientalista Henrique Cortez: “Cidadania ambiental: Água” (Editora Baraúna, 2010). Outra fonte é a Revista Cidadania & Meio Ambiente, que no número 37, do primeiro trimestre de 2012, traz excelente reportagem sobre “Como cuidar dos recursos hídricos”.

O primeiro parágrafo já mostra o quadro dramático da situação: “Todos os dias, milhões de toneladas de esgoto inadequadamente tratado e efluentes industriais e agrícolas são despejados nas águas do mundo. Todos os anos, lagos, rios e deltas absorvem o equivalente ao peso de toda a população humana – cerca de sete bilhões de pessoas – na forma de poluição. Anualmente, morrem mais pessoas pelas consequências de água imprópria que por todas as formas de violência, incluindo as guerras. Além disto, a cada ano, a contaminação das águas dos ecossistemas naturais afeta diretamente os seres humanos pela destruição de recursos pesqueiros ou outros impactos sobre a biodiversidade que afetam a produção de alimentos. Ao final, a maior parte da água doce poluída acaba nos oceanos, onde provoca graves prejuízos a áreas costeiras e recursos pesqueiros, agravando a situação de nossos recursos oceânicos e costeiros, e dificultando sua gestão” (p. 6).

Ninguém vive sem beber água e, sem água, não haveria comida e nem biocombustíveis (e nem chachaça e nem cerveja). Sem água não há segurança alimentar. Segundo a WWF, utiilizando a metodologia da pegada hídrica, são necessários 15,5 mil litros de água para produzir um quilo de carne bovina, 2,7 mil litros para fabricar uma camisa de algodão, 2,4 mil litros para um hanbúrger, 2,4 mil litros para 100 gramas de chocolate, 1,5 mil litros para um quilo de açucar refinado, 140 litros para uma xícara de café e 120 litros para uma taça de vinho. Um litro de etanol produzido a partir de cana-de-açúcar precisa de 18,4 litros de água e 1,52 metros quadrados de terra. Para alimentar os humanos, a agricultura já capta 70% da água doce do globo e para 2050 é previsto um aumento de mais 70% da produção agrícola e 19% de seu consumo mundial de água, para atender a demanda demográfica e econômica.

Reportagem recente da agência EFE mostrou que: “120 milhões de europeus não têm acesso à água potável. No sul da Europa, certas partes da Europa central e do leste europeu os cursos de água podem chegar a perder até 80% de seu volume no verão. Na África, onde a taxa média anual de aumento da população ronda 2,6%, 1,4 pontos a mais que a média mundial, a demanda implícita de água acelera a degradação de seus recursos hídricos. Uma parcela de 66% do continente africano é árido ou semi-árido e mais de 300 milhões dos 800 que habitam a África Subsaariana vivem em um entorno pobre em água, equivalente a menos de mil metros cúbicos por habitante por ano. A Ásia e o Pacífico, por outro lado, abrigam 60% da população mundial mas não possuem mais que 36% dos recursos hídricos”.

Reportagem do Le Monde mostra que “A guerra da água” é uma possibilidade cada vez mais próxima e comenta, por exemplo, os conflitos geopolíticos causados pela diminuição dos recursos hídricos em uma região já muito instável como o triângulo Paquistão-Índia-China. Expostos a necessidades crescentes em energia, os Estados situados em torno do Himalaia – sobretudo a China e a Índia que apresentam altas taxas de crescimento econômico – embarcaram em ambiciosos projetos de barragens hidrelétricas, causando tensões inevitáveis com os países situados na direção da foz dos principais rios asiáticos. O derretimento de algumas geleiras himalaias, que aumenta os riscos de inundação a curto prazo, contribuem para agravar os problemas.

Ainda segundo o Le Monde, a Índia se situa no centro de um quebra-cabeça “hidropolítico”. Além de suas brigas ideológicas com seus vizinhos, a divisão das águas do Himalaia aparece como uma grande fonte de atritos. Com a China, a controvérsia só tem aumentado nos últimos anos. Ela se concentra nos projetos chineses ao longo do Brahmaputra (também chamado por seu nome tibetano Yarlung Zangbo pelos chineses), que começa no Tibete, bem como a maior parte dos grandes rios da Ásia. Saindo do Tibete, o Brahmaputra atravessa os Estados indianos de Arunashal Pradesh e do Assam (nordeste), antes de percorrer Bangladesh. O governo de Nova Déli também vê com bastante desconfiança a construção de tais barragens, que podem alterar o curso do rio em suas terras do nordeste. Recentemente houve polêmicas a respeito de rumores sobre um suposto projeto faraônico de Pequim visando desviar a água do Brahmaputra para canalizá-la na direção das sedentas regiões do Norte da China. O Nepal, apesar de ser um país situado na direção da nascente, devido ao seu atraso tecnológico teve de cooperar com a Índia para a construção de suas barragens em virtude de acordos acusados de serem “desiguais” por alguns partidos nepaleses.

O exemplo da Ásia pode ser completado com vários exemplos de conflitos “hidropolíticos” na África, pois a bacia do rio Nilo não comporta o crescimento populacional e econômico dos países que dependem de suas águas. Nestes aspectos, o continente americando é privilegiado, pois possui mais água e menos conflitos. Mas a disputa pela água juntamente com a disputa territorial possibilitou, por exemplo, que o Brasil e o Paraguai resolvessem seus conflitos inundando a maravilha da natureza que era Sete Guedas, no rio Paraná, para dar lugar ao atual lago de Itaipú. Este é um dos maiores crimes ambientais da história brasileira.

Mas com ou sem guerras, o fato é que os recursos hídricos estão ficando cada vez mais escassos para a humanidade e ainda mais escassos para a biodiversidade. Principalmente falta políticas adequadas de gestão dos aquíferos e das bacias hidrográficas. Falta também questionar o crescimento econômico pelo crescimento que aumenta a demanda mundial pela água e agrava os problemas de poluição. O que o mundo precisa é mudar o modelo de desenvolvimento marron e dar início a uma Revolução Azul, para preservar as águas e a vida na água, reduzindo a acidez e ampliando a biodiversidade aquática. O mundo precisa oxigenar a vida política e oxigenar biologicamente a Terra, o Planeta Azul.

*José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Fonte: Portal EcoDebate

Artigo – Reflexões de um conservador de nascentes

Por Osvaldo Ferreira Valente*

Temos convivido, principalmente nos últimos dois anos, com um bombardeio midiático a respeito de dois assuntos: água e floresta. E como sou engenheiro florestal e especialista em hidrologia e manejo de pequenas bacias hidrográficas – conservação de aquíferos e nascentes -, não consigo ficar indiferente a muitas opiniões dadas sobre os temas, mas desprovidas de fundamentos técnico-científicos. Por isso, já tenho escrito artigos e mais artigos com reclamações sobre tais comportamentos. Não que queira ser dono da verdade, mas lutando para que as discussões fujam dos lugares comuns ou que as pessoas deixem de opinar simplesmente por ouvir dizer. O rol dos palpites inclui, também, especialistas de outras áreas do saber, que por serem nomes conhecidos em suas atividades, acabam trazendo credibilidade para informações com pouco conteúdo hidrológico. Prestam um desserviço à causa da conservação de recursos hídricos.

Os debates sobre o novo Código Florestal têm, até certo ponto, vendido ilusões sobre as relações da floresta com a água, principalmente quando deixam no ar a ideia de que se não houver mata a ciliar, as nascentes e os cursos d’água desaparecerão. Interpretando essa ideia, pode-se intuir, então, que a presença da mata ciliar é suficiente para garantir a presença de nascentes e cursos d’água, o que não é verdade. Acabaram até se esquecendo da Lei Federal 9.433, de 1967, a Lei das Águas, que diz ser a bacia hidrográfica a unidade da superfície adequada para produção e gerenciamento do uso de água. É ela que recebe a chuva, processa e armazena ou não em seus aquíferos subterrâneos, dependendo do que acontece nas interações água/solo/planta. E a bacia hidrográfica não é resumida pelas áreas ciliares ou ripárias, nem tão pouco pelas áreas de topo. Nem sempre os aquíferos, mantenedores das nascentes e dos cursos d’água nas épocas de estiagens, são abastecidos por tais partes das bacias. Para nós, hidrologistas de aquíferos e nascentes, tais fundamentos são elementares, mas temos falhado em transmitir isso ao público, pois a pregação da mata ciliar como salvadora absoluta da água é tema recorrente na mídia em geral.

Tenho várias experiências próprias, de campo, onde pequenas bacias, trabalhadas com práticas de conservação de solos adaptadas à produção de água, chegaram a ter as vazões de suas nascentes aumentadas em até 100%. Isso de um ano para outro e sem a plantação de árvores. Mas é evidente que a floresta também é uma tecnologia importante (só não é a única) para conseguir aumentos semelhantes, desde que distribuída na bacia com base em conhecimento prévio do respectivo ecossistema hidrológico. O que fizemos foi buscar alternativas onde, por razões de ocupação do solo, não era possível a adoção do reflorestamento.

O importante é darmos assistência técnica e financeira aos produtores rurais, em cujas propriedades estão a maioria das nascentes dos cursos d’água brasileiros, para que eles conduzam suas atividades de modo a conseguir produtividades agropecuárias e florestais remuneradoras, mas, também, produzam boas quantidades de água. Convém jamais nos esquecermos que a água, pela Lei 9.433 é um bem de domínio público e sua produção não pode ficar debitada apenas aos proprietários rurais.

*Osvaldo Ferreira Valente é engenheiro florestal, especialista em hidrologia e manejo de pequenas bacias hidrográficas, professor titular, aposentado, da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e autor do livro “Conservação de nascentes – Produção de água em pequenas bacias hidrográficas”; colaborador e articulista do EcoDebate. valente.osvaldo@gmail.com.

Fonte: Portal EcoDebate

Empregos verdes devem visar segurança

O aparecimento de empregos verdes na economia deve exigir dos governos integração com políticas públicas para a segurança e saúde dos trabalhadores, segundo relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) intitulado: Promover a Segurança e a Saúde numa Economia Verde. O relatório diz que “os empregos verdes atuais não se traduzem necessariamente em empregos dignos e em melhores resultados ambientais”.

Segundo o relatório, com o interesse crescente nas energias alternativas, nos próximos anos poderá haver um grande crescimento de empregos verdes em todo o mundo, que poderá chegar a empregar 20 milhões de pessoas em 2030. A Alemanha, o Japão, a China, o Brasil e os Estados Unidos desempenham um papel particularmente importante no desenvolvimento das tecnologias renováveis e estes têm sido os países responsáveis pela grande maioria dos empregos criados mundialmente no setor das energias renováveis.

O documento aponta que um primeiro passo pode ser “a integração da segurança e da saúde (do trabalhador) nos sistemas de classificação, validação de índices e certificação e a aplicação das normas de qualidade de segurança e saúde do trabalhador aos empregos verdes”.

O relatório diz ainda que um outro aspecto a se considerar, em relação aos empregos verdes, é o impacto que eles têm sobre toda a cadeia produtiva, principalmente no caso dos empregos na construção, na Reciclagem de resíduos, na produção de energia solar e no processamento de biomassa.

“A transição para uma economia verde e com locais de trabalho mais respeitadores do ambiente pode ser a for­ça motriz para a aplicação maior de normas laborais através de uma combinação de sensibilização, participação de empregadores e trabalhadores e respectivas organizações, regulação e cumprimento (de normas).”

Outro ponto abordado no relatório é o fato de que, para haver um avanço nos empregos dentro da economia verde, é preciso a criação de empregos verdes que incluam a segurança e a saúde dos trabalhadores. “Só a esta altura estaremos contribuindo para um resultado ambientalmente sustentável e socialmente inclusivo; só a esta altura conseguiremos alcançar um trabalho seguro, saudável e digno numa economia verde”, diz o documento.

A OIT define empregos verdes como trabalhos e atividades que contribuem substancialmente para preservar ou restaurar a qualidade ambiental, como trabalhos que reduzam o consumo de ener­gia, materiais e água através de estratégias de alta eficiência.

Fonte: Folha de Pernambuco

Artigo – Além do PIB

Por José Alberto Gonçalves Pereira

Anfitrião da Rio+20, o Brasil ainda não estabeleceu um sistema nacional de contas econômico-ambientais integradas, conforme recomendação
do item 8 da Agenda 21, um dos principais documentos adotados na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio 92. Mas, na Rio+20, o País deverá finalmente anunciar que terá pronta em 2014 a conta nacional da água – sua primeira conta econômico-ambiental. Está prevista para este mês a assinatura de portaria conjunta dos ministérios do Meio Ambiente e do Planejamento que instalará o grupo de trabalho responsável pelos cálculos da conta. Participarão técnicos da Agência Nacional de Águas (ANA) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A primeira edição da conta da água divulgará dados de 2013, informa Marco Neves, assessor do diretor-presidente da ANA. Como a medição seguirá os padrões estatísticos do Sistema de Contabilidade Ambiental
e Econômica Integrada da Divisão de Estatística
das Nações Unidas, suas informações poderão ser comparadas com as de outros países que possuem o instrumento, caso da Austrália.

Segundo Neves, mediante a conta nacional da água, será possível entender melhor a relação entre uso da água e dinâmica econômica. A ANA dispõe de muitos dados sobre disponibilidade e demanda hídrica, mas ainda não há informações mais sólidas sobre o custo da água para os setores econômicos. Não se sabe também quanto se gera de valor na produção a cada metro cúbico de água consumido pela agricultura, indústria e setor de serviços. “Poderemos saber se um determinado setor econômico está agregando maior valor financeiro com decréscimo no consumo de água”, explica. Em um segundo momento, talvez em 2014, o indicador também medirá em termos monetários as perdas acarretadas ao país pela poluição do mar e de rios, lagos e represas.

“Esse tipo de informação é muito valioso para os gestores públicos”, observa Wadih João Scandar Neto, diretor de Geociências do IBGE. “A conta permitirá ao gestor, por exemplo, administrar melhor os conflitos
 de uso do recurso, facilitando sua decisão sobre 
outorgar mais água para a indústria ou a agricultura em determinada bacia.” Há muitos dados sobre consumo de água, assinala o executivo do IBGE, mas são parciais e não estão integrados à dimensão econômica da produção industrial e primária. Além do mais, a conta brasileira 
da água será tecnicamente bastante confiável, visto que seguirá o padrão internacional de contas econômico-ambientais definido em fevereiro pela ONU.

A recomendação para os países produzirem suas contas nacionais econômico-ambientais deverá ser reiterada na declaração final da Rio+20. No item 111 do Rascunho Zero, documento divulgado em janeiro,
é reconhecida a limitação do Produto Interno Bruto para medir o bem-estar humano e a necessidade de indicadores complementares ao índice que integrem as dimensões econômica, ambiental e social.

Para o professor José Eli da Veiga, do Instituto
de Relações Internacionais da USP, a declaração 
final deveria sugerir a formulação de indicadores que superem o PIB em vez de o complementarem, como prevê o rascunho. Simultaneamente, propõe Veiga,
 a declaração precisa fazer referência explícita às recomendações do Relatório Stiglitz-Sen-Fitoussi, de 2009: maior ênfase no consumo familiar que no PIB, criação de um índice de qualidade de vida e uso de alguns indicadores biofísicos, como as pegadas de carbono, água e nitrogênio. “Fora disso, será inevitavelmente mais conversa fiada”, critica o professor da USP.

As contas econômico-ambientais medem a contribuição à economia de ativos ambientais como água, ar, solo, floresta, minerais e biodiversidade, bem como contabilizam monetariamente a degradação de recursos naturais causada pela atividade econômica. Dessa forma, conferem visibilidade a dimensões inexistentes no cálculo do PIB. Estudos recentes, a exemplo do trabalho sobre economia verde publicado em 2011 pelo Programa
das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e do relatório da Comissão Stiglitz-Sen-Fitoussi, apontam a hegemonia do PIB na avaliação do desempenho econômico como um fator limitante ao desenvolvimento sustentável de uma nação.

Isso ocorre porque o PIB calcula basicamente a variação negativa ou positiva na produção de bens e serviços. Na economia convencional, o crescimento robusto do PIB sinaliza a boa saúde econômica de uma nação, não importando que o desempenho esteja associado à piora de indicadores ambientais
e sociais. Não é deduzido do PIB, por exemplo, o custo das doenças e milhares de mortes provocadas pela poluição atmosférica na China decorrente do crescimento exuberante e veloz da economia asiática nas duas últimas décadas.

“É importante destacar que há uma longa 
história de tentativas de desenvolvimento de contas ambientais”, sublinha Sandra Paulsen, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Segunda ela, o tema ganhou mais atenção com a Comissão Stiglitz-Sen-Fitoussi, mas o americano
 Robert Repetto, um dos mais importantes economistas ambientais da atualidade, já falava da necessidade de incorporar o capital natural na contabilidade nacional lá pelos idos da década de 1980.

Fonte: Mercado Ético/Terra

Artigo – Planícies de inundação e áreas de preservação

Por Roberto Naime*

Planícies de inundação são áreas de baixios de bacias hidrográficas que atuam na manutenção do equilíbrio hidrológico da bacia. Quando ocorrem cheias ou enchentes a bacia hidrográfica usa suas áreas de baixios, também conhecida por áreas de várzeas para extravasamento do excesso de água.

Os egípcios que representam uma das primeiras civilizações gregárias, usavam a fertilização gerada pelo transporte de matéria orgânica durante eventos de cheias do rio Nilo, para as várzeas ou áreas de baixios para cultivarem cereais nestes locais. E residiam em partes mais altas das bacias, tendendo a não sofrerem qualquer impacto com as enchentes que serviam apenas para fertilizar suas áreas de cultivo.

As áreas de preservação dentro das áreas de várzeas ou baixios das bacias hidrográficas, são as áreas de matas ciliares que protegem os cursos principais de rios e arroios. As matas ciliares são refúgio de flora e fauna, estabilizam os taludes dos cursos de água, protegem e evitam erosões e assoreamentos, dentre outras funções.

Se a área de preservação fosse todo o baixio e toda várzea não poderíamos ter nenhuma lavoura de arroz irrigado no país. Isto é uma constatação e não uma opinião.

Em materiais aluvionares recentes são comuns intercalações de camadas ou lentes argilosas que representam antigos depósitos lenticulares de planícies de inundação holocênicas com lentes ou camadas arenosas que representam antigos canais fluviais de idade holocênica ou recente e estas intercalações constituem as planícies aluviais de rios e arroios de idade holocênica ou recente.

Coeficiente de permeabilidade de terrenos ou solo são uma grandeza que permite medir em cm/s a velocidade de passagem da água nos materiais. Areias tem baixo coeficiente de permeabilidade e permitem rápida passagem de fluidos, enquanto argilas tem alto coeficiente de permeabilidade e produzem lenta passagem de fluidos de qualquer natureza (SELLEY, 1976)

A área de “wetland” simplesmente existe num determinado local, porque sotopostas devem existir corpos de pelitos (siltes e argilas de granulação fina e baixa permeabilidade) ou outros tipos de rochas que impedem a passagem de água para o interior da terra, para rochas mais profundas que constituem os aquíferos subterrâneos no local.

O “wetland” é este baixio inundado. Representa uma área de fuga natural criada para ser planície de inundação de um arroio ou curso de água que passa no interior de uma mata ciliar no fundo da bacia hidrográfica.

A área de preservação permanente é a mata ciliar que protege o curso principal do curo de água e não a área de baixio natural criada pela natureza para ser planície de inundação e estabelecer o equilíbrio hidrológico do curso de água.

Planície de inundação é uma caixa reguladora de equilíbrio hidrológico de um curso de água, sendo para onde fluem as águas das enchentes quando ocorrem cheias. Se não existissem as planícies de inundação as cheias seriam piores. As primeiras civilizações gregárias do mundo, conforme vimos, no Egito utilizavam a fertilização natural que as planícies de inundação recebiam dos rios, no caso o Rio Nilo, para cultivar cereais nas áreas da planícies de inundação, vivendo e morando nas margens mais elevadas das bacias hidrográficas.

A planície de inundação pode ter tamanho muito variado de acordo com as necessidades hidrológicas do curso de água e não constitui área de preservação permanente, que é restrita à vegetação ciliar que protege o curso de água principal, evitando erosões e desbarrancamentos. Se planície de inundação fosse área de preservação permanente não poderia existir nenhuma área de cultivo de arroz nas várzeas do Brasil.

São comuns em áreas de empreendimentos longe de cursos de água, projetos com destinação final dos efluentes após o tratamento em áreas de “wetlands” em situações que o empreendimento não dispunha de curso de água adjacente para destinação final do efluente líquido após tratamento.

Esta é uma solução técnica adequada desde que os efluentes após o tratamento estejam rigorosamente dentro das especificações técnicas e condicionantes específicas do órgão ambiental responsável pelo licenciamento da operação no local.

Boa parte senão a maior parte ou a quase totalidade das áreas de “wetlands” estão instaladas em planícies de inundação que integram as áreas de manutenção do equilíbrio hidrológico das bacias hidrográficas.

As águas superficiais são representadas pelas drenagens e rios que coletam as águas pluviais, originadas pelas chuvas, também denominadas águas freáticas.

Em hidrologia, a ciência que estuda as águas superficiais, é bem conhecida a equação denominada balanço hídrico. Esta contabilidade representa a quantidade de chuva de uma determinada região, que representa a disponibilidade hídrica, subtraída das águas que sofrem infiltração nos solos e/ou evapotranspiração.

* Roberto Naime, colunista do EcoDebate, é doutor em Geologia Ambiental e integrante do corpo docente do mestrado e doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Fonte:  Portal EcoDebate