Considerada uma das maiores tragédias ambientais já registradas na história da Região de Campinas, caso Shell completa dez anos e com uma interminável batalha judicial. Ex-trabalhadores da Shell Química e antigos moradores do Recanto dos Pássaros (bairro rural onde se localizava a fábrica) esperam ser indenizados pela empresa que, assumidamente, contaminou o ar, o solo e as águas subterrâneas com os produtos químicos usados na fabricação de agrotóxicos. Neste período, 61 pessoas morreram, vítimas de doenças possivelmente provocadas pela contaminação.
O Ministério Público do Estado de São Paulo moveu ação judicial contra a Shell e a Basf (que na década anterior tinha adquirido a unidade fabril em Paulínia), exigindo que as empresas assumissem o custeio do tratamento das supostas vítimas, e que os cofres públicos fossem indenizados pelos danos ambientais. Os custos estipulados em 2010 passavam de R$ 620 milhões. Mas as empresas acionadas conseguem, projudicialmente, atenuar as decisões anteriores. Novas sentenças suspenderam o pagamento de multas e indenizações individuais.
Nada menos que 1.142 pessoas são relacionadas pelas lideranças sindicais do setor como prejudicadas durante os 25 anos em que a fábrica funcionou. Enquanto aguardam uma decisão, essas pessoas enfrentam um cotidiano de sofrimento. Há no grupo quem convive com doenças sérias. Alguns nunca mais puderam trabalhar. Há denúncias até de filhos gerados com má-formação, por conta da exposição prolongada dos adultos aos produtos tóxicos.
A direção da Shell, no entanto, informa que a existência de contaminação ambiental não implica, necessariamente, em exposição e prejuízo à saúde de pessoas. Não é possível, segundo a empresa, afirmar que elas estão doentes porque trabalharam ou moraram nas imediações. Como não é possível associar as mortes registradas ao caso. A empresa diz que, em 2001, chamou ex-funcionários para avaliação de saúde, colocando uma clínica especializada em toxicologia à disposição. Informa também que, na época, “não se constatou um único caso de intoxicação”. Na ocasião, também passaram por exames os moradores do Recanto dos Pássaros.
Risco prolongado
Apesar dos laudos técnicos da empresa, lideranças do setor consideram que o risco de se desenvolver uma doença se prolonga pela vida toda. Para André Henrique Alves, diretor em Paulínia do Sindicato Químico Unificado, tudo o que a sociedade espera é que todos os trabalhadores, moradores e descendentes tenham direito a um plano médico vitalício. Para justificar sua tese, ele relaciona apontamentos de especialistas.
Como o do médico do toxicologista paulistano Igor Vassilieff, que na última década atendeu diversos ex-funcionários da Shell e foi claro nos atestados. A intoxicação crônica, causada por produtos químicos como pesticidas e metais pesados, provoca danos diversos à saúde: cardiopatia, distúrbios comportamentais, dores nos músculos e nas articulações. Muitas vítimas, abaladas física ou psicologicamente, precisam deixar o trabalho.
A segunda Vara do Trabalho de Paulínia, em recente decisão favorável à indenização de um ex-funcionário da Shell, considerou que, mesmo que os trabalhadores não apresentem atualmente alterações de saúde significativas, o processo de evolução de um câncer até o tumor é lento e pode durar décadas, o que justifica acompanhamento médico por vários anos.
E é por conta disso que uma centena de cidadãos, impacientes com a lentidão do processo, movem ações individuais. A maioria, no entanto, não tem condições financeiras. “Eles pagam as consultas médicas e o tratamento esperando ser indenizados no futuro”, afirma o sindicalista Alves.
Personagem
O jovem Leonardo, de 22 anos, é sorridente e carinhoso. Mas só anda amparado e não diz uma palavra. Também precisa de ajuda para fazer as necessidades e se alimentar. Para a mãe dele, Mary, não há dúvida. O garoto é vítima de substâncias tóxicas que ela própria consumiu, quando bebia água ou se alimentava na fábrica da Shell. Ela diz que Léo teve má-formação do tubo neural, provocada pelas substâncias contaminantes. Benedita Mary Andrade, hoje com 55 anos, foi encarregada de serviços gerais na Shell de 1979 a 1988. Ela mesmo denunciou, à direção, que a água consumida pelo operários estava poluída. Levou ao gerente um copo com o líquido escuro. Ela lembra que alguns funcionários foram transferidos. Outros, como ela, perderam o emprego. “A empresa quis se livrar do problema. Não deu atenção à denúncia”.
Mary é professora estadual. Ela conta com a ajuda de uma irmã e um cunhado, que moram na mesma casa e também cuidam do menino. Nunca foi indenizada. Precisou recorrer à ajuda mensal fornecida pelo instituto de previdência dos servidores: quatro salários mínimos. Sua saga na Justiça começou em 2007. Para garantir as aulas de equoterapia que fizeram Léo andar, ela se ofereceu para dar aulas de educação artística a outras famílias inscritas no serviço.
Acesse o link a seguir e confira o vídeo sobre o caso Shell/Basf: http://www.youtube.com/watch?v=JfEcu1z3zvk&feature=player_embedded
Fonte: Portal de Paulínia






