Aumento no número de poços vai acabar com água potável de Maceió em 50 anos

Estudo aponta extração superior ao que os aquíferos conseguem repor

Por Ana Paula Omena, do Tribuna Independente

Mesmo sendo o dono do maior potencial hídrico do planeta, o Brasil corre o risco de nos próximos 50 anos sofrer com problemas de abastecimento de água em mais da metade dos municípios. Maceió não está de fora, e também precisa frear o desperdício de água potável ou não terá mais onde encontrá-la daqui a meio século.

Os dados são do estudo hidrogeológico elaborado pela Agência Nacional de Águas (ANA), apresentado aos alagoanos em novembro do ano passado, na capital do Estado.

Segundo o estudo que durou dois anos (2009 a 2011), por ano, a área urbana de Maceió extrai 100 milhões de metros cúbicos a mais do que os aquíferos conseguem naturalmente repor ao volume de águas subterrâneas: uma preocupação a mais que nos outros municípios, segundo o gerente de Águas Subterrâneas da ANA, Fernando de Oliveira.

No bairro do Vergel do Lago, um dos mais antigos de Maceió, os moradores já convivem com a falta de água durante todo o ano. De acordo com a moradora Vera Lúcia Jorge de Lima, que trabalha o dia inteiro, a pior parte é chegar em casa e ver tudo sujo e sem ter uma gota de água na torneira para lavar. “Perdi as contas das vezes que os moradores fecham ruas em protesto pela falta d’água. Ninguém consegue sobreviver sem este bem tão precioso”, fala, com experiência.

Michele Vieira, também moradora do Vergel, lamentou a situação enquanto lavava roupas num terreno onde jorra água abundamentemente, só que distante de sua casa. Ela disse que, por não ter dinheiro para comprar água em garrafões, tem que se submeter a lavar roupas, tomar banho e até cozinhar com a água disponível.

Sem fiscalização

De acordo com a análise da água em Maceió feita pela Agência Nacional de Águas (ANA), há 2204 poços na capital alagoana (700 identificados pelo estudo), sendo 1882 particulares e 322 pertencentes à Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal). O gerente de Águas Subterrâneas da ANA, Fernando Oliveira, explicou que a ‘grosso modo’ Maceió possui duas reservas de água, uma renovável e outra permanente. “Porém já retiraram toda reserva renovável e agora exploraram a permanente, que se trata das águas subterrâneas”, disse. “A reposição da reserva permanente é lenta demais. Estão tirando mais água do que recarregando”, avisou.

Conforme Oliveira, não é o fim, mas se a população continuar retirando água da forma como está sendo feita, nos próximos 50 anos não haverá mais água potável em Maceió. “[Haverá] apenas de cunha salina, isto é, de água salgada avançando no aquífero”, fala. Em Maceió, poços da Casal tiveram que ser desativados por conta da salinização. “Se continuar assim, a população deve sofrer para comprar o líquido por conta dos altos preços”, frisou. “O Estado está se preparando com o sistema Pratagy. Quando ele estiver pronto, espera-se que supra a demanda e não maltrate tanto a reserva de superfície para o futuro”.

Ele sugeriu que o poder público proiba a criação de novos poços na cidade. A Agência Nacional de Águas (ANA) apresentou aos alagoanos os “Estudos Hidrogeológicos para Subsidiar a Gestão Sustentável dos Recursos Hídricos Subterrâneos na Região Metropolitana de Maceió”. O objetivo do trabalho foi gerar conhecimentos hidrogeológicos para a gestão sustentável de águas subterrâneas na cidade. O estudo mapeia quantitativa e qualitativamente como se dá a utilização das águas subterrâneas da cidade.

Redução

Para tentar resolver ou pelo menos tardar a ameaça de desabastecimento de água em Maceió, a diretriz da Casal é priorizar o abastecimento por meio de manancial de superfície, a exemplo dos Sistemas Catolé e Pratagy, pois há o entendimento de que a água subterrânea é uma reserva estratégica para o futuro, isto é, das novas gerações, segundo o vice-presidente de Gestão Operacional da Casal, Moisés Vieira.

Ele explicou que a Companhia tem feito seu papel e disse que na década de 80, por exemplo, 80% da água utilizado seriam provenientes de poços profundos, que são as águas subterrâneas. “Já na década de 90, reduziu em 65%, e hoje está próximo de 40%, apenas, desta reserva”. “Vamos avançar mais. Estamos com o Sistema Pratagy, onde teremos uma nova bomba para colocar em operação que vai permitir retirar 30% dos poços, ou seja, cerca de 50 deles serão desativados”, declarou Moisés Vieira.

Ele mencionou que embora exista o Pratagy, o sistema ainda não está funcionando na sua totalidade. “Para o futuro já estamos trabalhando no Projeto Meirim, que tem vazão boa de superfície, preservando os poços, e que vai abastecer Maceió nos próximos 20 anos”, avisou.

Problema antigo

Enquanto a Casal busca alternativa para o abastecimento da maior parte de Maceió, bairros antigos sofrem com o problema há anos. “A gente sofre muito com a falta de água. Estou até com problema na coluna de tanto carregar baldes até em casa. Quem quiser ter água, tem que comprar porque aqui [bairro do Vergel] chega um dia e faltam 29 no mês”, disparou a marisqueira Michele Vieira. “A gente se alimenta pouco para poder economizar e comprar água, principalmente quem tem filho pequeno”, lembrou.

Fonte:  Site Tribuna Hoje

Uma resposta para Aumento no número de poços vai acabar com água potável de Maceió em 50 anos

  1. Os trabalhos da ANA estão mostrando muitos dos problemas que vinham sendo discutidos dentro dos círculos técnicos e eventos da ABAS. Parabéns pelos trabalhos, pois estamos começando os trabalhos de gestão de recursos hídricos considerando as águas subterrâneas, como deve ser feito.

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